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Belenense morando em São Paulo, marido da Mayara, jornalista, mestre em Comunicação. E - não importando o quão ultrapassado isso soe - blogueiro, às vezes.

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Jornalismo cultural meia-boca, parcial, opinativo, paternalista, escrito entre um cigarro e outro, na correria da semana ou na falta-do-que-fazer dos domingos azulados. Poderiam ser textos melhores. Poderiam ser opiniões melhores. Mas definitivamente não poderiam ser mais sinceros.
28.1.12

Michael Jackson

De Guto Lobato

O consagrado “Rei do pop”, conhecido mais por seus escândalos que por suas virtudes, faleceu em 25 de junho, às vésperas de voltar aos palcos com uma turnê de 50 shows. É uma perda difícil de digerir – mas que pode incentivar uma pesquisa aprofundada em sua longeva produção musical.


Não é exagero afirmar que o dia 25 de junho de 2009 ficará marcado na história da música. Pode ser até que esqueçamos da data daqui a alguns anos – em que dia, afinal, morreram John Lennon, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Renato Russo, Cazuza? –, mas do astro que, nela, deixou o mundo... ah, disso lembraremos. Talvez nem sempre por suas qualidades artísticas, e sim por sua extravagância, por suas infindáveis polêmicas. Mas o fato é que, seja você fã ou não de Michael Jackson, o cantor-dançarino-produtor-compositor que faleceu sob circunstâncias duvidosas em sua casa, às vésperas de iniciar uma megaturnê, vai ser trabalhoso passar os próximos anos sem ouvir menções, homenagens, comentários e alusões à sua obra. Não restam dúvidas que o so-called “Rei do pop” ficará eternizado no hall da fama, lado a lado com estrelas do quilate dos falecidos que citei acima – por seus recordes, por seus excessos. Nada mais justo para um homem que viveu da – e para a – música.

Você tem duas opções para guardar a imagem de Michael Jackson em sua memória: uma delas é aquela fomentada pela imprensa marrom e pelos escândalos por ele protagonizados – a do homem excêntrico, louco até, nascido negro e morto branco, afeiçoado por criancinhas, animais bizarros e pelo sonho de vender 100 milhões de unidades de um único disco. Ou então fugir dos clichês e mergulhar fundo em um dos artistas mais complexos do século XX, conhecendo a fundo suas qualidades, seus altos e baixos. E, acima de tudo, sua trajetória musical.

A melhor opção é a segunda – se tudo o que você conhece de Michael se resume aos clipes de “Thriller”, “Black or white” e às imagens que povoaram emissoras de todo o mundo em junho passado, está na hora de se atualizar. Pode até ser mórbida, essa mania de correr atrás dos discos depois que o cara morreu, mas para alguma coisa a morte há de servir, certo? Nem que seja para resolver uma dívida histórica que tenhamos para com ele.

De menino-prodígio a jovem astro


Definir o “marco zero” da carreira de Michael é, por si só, um trabalho de desmistificação. Não que pouca gente saiba que “Off the wall” não é o primeiro álbum do cantor, mas a tendência em apagar tudo o que venha antes de 1979 da memória coletiva de fato existe. A verdade é que olhar para trás e ver aquele garotinho negro e de olhos penetrantes, vestindo calças boca-de-sino e levando adolescentes aos gritos no interior dos Estados Unidos com o Jackson 5, é uma surpresa, mesmo para os fãs mais experientes. É quase como enxergar um abismo entre o menino-prodígio e o jovem astro que estourou na MTV anos depois.

Irmão de oito garotos e garotas de inexplicável talento musical, criado sob rotina rígida na cidade de Gary, no estado de Indiana, Michael viveu sob as rédeas do pai Joe Jackson até atingir a maturidade. Junto a alguns de seus irmãos, o garoto tímido e de poucas palavras foi levado ainda pequeno até a gravadora Motown e posto nos moldes – leia-se: vestido e produzido como um “jovem artista negro para brancos”. A fórmula musical era simples: soul, bebop – um tipo muito peculiar de jazz –, disco, funk e até uma pitada de rock, tudo sob o comando da voz potente e naturalmente afinada do garoto. No palco, ele era um mini-astro, sorridente e seguro de si, como rezava a cartilha da Motown, e comandava os irmãos com energia natural. Era tudo que o mercado americano queria àquela época de intensas mudanças culturais.

Com o Jackson 5, Michael emplacou alguns sucessos entre a segunda metade da década de 1960 e o ano de 1974. Canções como “I want you back”, “ABC”, “I´ll be there”, “Mama´s pearl”, “Dancing machine” e “The love you save”, é verdade, têm certo fundo de megaprodução artificial, mas mesmo assim demonstram o que iria resultar daquela forçação de barra de Joe Jackson: em segundo plano, o grupo The Jacksons, criado com a saída de dois dos irmãos e a rescisão do contrato com a Motown; e, em primeiro, Michael, livre para fazer o que bem entendesse em carreira solo e exercitar um de seus muitos defeitos-qualidades: o obsessivo desejo de auto-superação.

Na verdade, Michael já havia há muito decidido fazer sucesso sem os irmãos. Pela própria Motown, ele havia lançado “Got to be there” (1971), “Ben” (1972), “Music and me” (1973) e “Forever, Michael” (1975), uma sequência de quatro discos instável, mas que bem evidencia as qualidades artísticas do cantor. Com as faixas-título “Ben” e “Got to be there”, o artista conquistou os Estados Unidos e chegou, também, a alguns países europeus. O sucesso, no entanto, ficou quase que circunscrito ao território norte-americano – “Foverer Michael”, por exemplo, rendeu dois compactos nos EUA, mas sequer chegou às lojas europeias.

“Music and me”, um dos melhores desta fase embrionária, abre com uma bela canção, “With a child´s heart”, um soul que em nada deve às influências de Michael à época. Apesar do jeito Motown de ser, já dava para sentir o climão diferenciado do mais talentoso dos Jackson em faixas como “All the things you are, are mine” e “Johnny raven”. Aquela voz aguda e constante, que, futuramente, casaria tão bem com o visual e os passos meticulosamente calculados do cantor, transparecia uma segurança incomum em garotos adolescentes como ele.

A chegada ao topo


Durante uns três anos, o Michael Jackson capaz de conquistar as mais variadas gerações e sair do conforto do mercado pop dos Estados Unidos foi sendo montado. A tão celebrada parceria com o produtor Quincy Jones começou logo após o cantor concretizar um sonho de infância: o de atuar. A proeza, registrada no musical para cinema “The wiz”, de 1978, foi a única coisa da obra a ser elogiada pela crítica, o que fez Jackson alimentar por décadas a vontade – jamais concretizada – de ser rei, também, nas telonas.

A verdade sobre “Off the wall” (1979), o primeiro resultado da parceria Michael-Quincy na gravadora Epic, é que ele nunca poderia ter soado tão genial sem a dedicação doentia dos dois à obra. E, também, sem a colaboração do time de compositores escalados para compor as dez faixas do disco: Paul McCartney, Stevie Wonder e Rod Temperton, além do cantor e seu produtor. São canções que, certamente, transpareciam a busca do artista por uma verve inovadora.

Soul, funk americano, disco, influências dele desde os tempos de Jackson 5, unem-se a uma pegada menos acústica e mais intensa que vai da faixa de abertura, “Don´t stop ´til you get enough” – sabe a vinheta de abertura do “Video show”, da TV Globo? Pois é... – até “Get on the floor”, “Off the wall” e “Burn this disco out”, todas claramente orientadas à pista de dança. E, para evitar olhares desconfiados, o ar romântico reaparece em “Rock with you”, “Girlfriend” e “She´s out of my life”, hits imediatos do disco.

Os louros colhidos pelo trabalho são vários: posições recorde em solo americano e europeu (o Reino Unido, sempre antenado, logo abraçou o artista como se fosse seu), o primeiro Grammy – pela faixa de abertura – e a chance de emplacar o primeiro recorde de vendas. Até hoje, quase 30 milhões de cópias deste disco foram vendidas – impulsionadas, em especial, por uma versão lançada em 2001, com faixas-bônus e depoimentos de Quincy Jones no final do CD. Os olhos do mundo já estavam sobre Michael.

Mesmo assim, o cantor se manteve junto aos irmãos no The Jacksons, lançando um álbum em 1980, e tentou se meter em um projeto mirabolante junto a Steven Spielberg, participando da narração de “E.T. – o extraterrestre”. A ideia foi logo impedida pela Sony, que entrou na Justiça, no intuito de acelerar o lançamento do novo disco. O motivo era simples: “Thriller”, o sucessor de “Off the wall” que viria a se tornar o álbum musical mais vendido da história – hoje, dizem por aí, já passou das 130 milhões de cópias vendidas – e a obra-prima da música pop, estava demorando demais para sair no mercado.

O cuidado em torno do trabalho é visível. Ao lado de Quincy, Michael voltou a buscar compositores de renome – além dos próprios, que escreveram quatro faixas – e lapidou uma sonoridade mais crua e intensa, algo que se vê logo em “Wanna be startin´ somethin´”, que traz em seu arranjo de baixo sintético os ares da década de 1980. “This girl is mine”, parceria com Paul McCartney em que o ex-Beatle até canta, não rendeu tanto como single, mas é certamente a “baladinha” mais inspirada de Michael. O dueto dos dois é emocionante, no sentido mais puro da palavra.

O resto do disco é tudo aquilo que você deve ter visto estrear na TV – se já era nascido à época – ou passar nas dezenas de programas-tributo posteriores à morte do cara. “Thriller”, com seu saboroso groove de baixo e sintetizador e seu clipe megalomaníaco-cinematográfico dirigido por John Landis, fez Michael ser o primeiro jovem negro a estourar na MTV. “Billie jean”, que imortalizou o moonwalk, aquele passo famosíssimo do cantor que até deu nome a filme e autobiografia, foi a segunda canção mais tocada nas rádios brasileiras em 1983. E “Beat it”, com sua guitarra hard rock tocada por Van Halen, acabou premiada pela MTV como melhor canção do ano. As três figuram, até hoje, como as faixas mais importantes da carreira de Michael. Quer prova maior da qualidade de “Thriller” que vê-las em sequência no setlist de um único disco?

“Bad”, Neverland, “Dangerous” e o sumiço


Passado o turbilhão, a incerteza em torno do próximo álbum era grande. Tanto para a crítica quanto para Michael – a essa época, já atormentado pela mídia por suas excentricidades e trejeitos bizarros. O incômodo com a pele negra, junto a um acidente no nariz (que quebrou em um show ao início da década) e à vitiligo – doença de pele que causa despigmentação –, fizeram com que o cantor iniciasse uma série de intervenções para mudar sua fisionomia. A coisa foi vista com estranheza tanto por sua família quanto pela imprensa, que se valeu de teorias e “fontes secretas” para reforçar a imagem de quase-louco do então jovem adulto Michael. Foi assim, logo ao completar 28 anos de idade, já com os cabelos modificados, as feições andróginas e a pele clara, que ele lançou no mercado “Bad” (1987), um trabalho muito criticado pelo flerte pouco ousado com a música oitentista, mas que mesmo assim vendeu como água e rendeu sua primeira turnê mundial em carreira solo.

O peso de ter chegado ao topo pouco transparece por aqui, na verdade; o disco continua sendo uma fábrica de hits nos moldes de “Off the wall” e “Thriller”. Fora a faixa de abertura – que, ao contrário do que disseram à época, é, sim, muito ousada –, há “The way you make me feel”, “Smooth criminal”, “Man in the mirror” e “Dirty diana” para comprovar isso. Todas saíram como singles e alcançaram boas posições ao redor do planeta. A coesão do trabalho, o último em parceria com Quincy Jones, é resultado de um trabalho cuidadoso em torno das melodias, que conservaram o jeitão do funk e do soul, porém com o uso ostensivo de sintetizadores, e das letras, cada vez mais elaboradas. “Man in the mirror”, com seus versos desafiadores, foi um sucesso e em muito casou com a política de caridade defendida por Michael na década seguinte. Era o reflexo de um artista amadurecido, enfim.

Maturidade que, infelizmente, só transparecia na música. Cada vez mais recluso, Michael se mudou para Neverland, um rancho de custo quase inestimável feito sob medida que, para a imprensa, era uma verdadeira fonte de renda. Bizarra, a residência em que o cantor se enfurnou por 17 anos era praticamente inacessível para “gente grande” (vivia sendo visitada por crianças) e mais parecia um parque de diversões, com incontáveis referências à literatura infanto-juvenil – o nome foi tirado da clássica saga de Peter Pan – e ao mundo lúdico de Walt Disney. As entrevistas e coletivas à imprensa, já raríssimas, encerraram de vez. Enquanto muito se especulava aqui fora, os dilemas internos de Michael afloraram em Neverland. Cada vez mais frustrado – para ele, “Bad” ter vendido “só” 30 milhões de cópias àquela época era sinal de fracasso – e nervoso, ele ficou obcecado com a ideia de seu novo CD ser um sucesso absoluto e inquestionável.

Não se sabe até que o ponto ele ficou satisfeito, mas o fato é que “Dangerous” ultrapassou as vendas do anterior e, em questão de dois anos, já era o segundo mais vendido de sua carreira. Pouco citado nos revivals de Jackson, este disco é mais lembrado por sua turnê – a maior da história, interrompida depois de ele ser acusado pela primeira vez de abusar de um menor de idade – que por sua bem sacada incursão no som da década de 1990. O fim da parceria com Quincy Jones é visível: o produtor Teddy Riley deixou Michael à vontade para mexer com o que quisesse, contanto que fosse novidade. O resultado é um CD de ares contemporâneos que parece ter sido gravado na semana passada.

Muito embora ainda estivessem em ascensão, gêneros como o rhythm n´blues e o hip hop norte-americanos figuram desde a primeira faixa do CD, “Jam”. A boa lapidação das composições segue com “Why you wanna trip on me”, “In the closet”, “Remember the time”, “Give in to me”, “Will you be there”, “Heal the world” – uma balada pop como há tempos não se via, que pôs à prova a ainda surpreendente capacidade vocal do cantor – e “Black or white”, provavelmente o último megahit de Jackson.

Uma estética ousada, mesclada com referências históricas e uma superprodução a la “Thriller” marcaram o clipe desta canção, que saiu à época em que o CD era entregue nas lojas americanas e logo se tornou uma das estreias mais assistidas da história das emissoras musicais. O investimento em vídeos seguiu com “Give in to me” – que teve a participação de Slash, do Guns n´Roses – e “Heal the world”, dois materiais essenciais para quem quiser conhecer a fundo a carreira de Michael. Esta última canção, por sinal, serviu para que ele desse título à sua campanha de caridade na “Heal the world foundation”, responsável por arrecadar milhões de dólares e embolsar mais alguns do próprio cantor, que não teve medo em investir sua fortuna em projetos de apoio a crianças de todo o mundo.

O “adeus” de “Invincible”

Nos próximos dez anos, pouco se ouviu falar sobre a música de Michael Jackson, à exceção da época da vultosa campanha de divulgação de “HIStory: past, present and future – Book I” (1995), um CD duplo de vendagem absurda (30 milhões de cópias, novamente – e Michael ainda estava inseguro de seu sucesso) que tinha, entre suas trinta faixas, alguns sucessos remasterizados e canções inéditas. Do álbum, saíram alguns sucessos como “Earth song”, “They don´t care about us” – aquela cujo clipe foi filmado no Brasil, no Rio de Janeiro e em Salvador – e a excelente “Scream”, um dueto-duelo entre Michael e sua irmã mais nova Janet de sonoridade (e videoclipe) moderníssimos. No mais, o CD ainda motivou uma longa turnê de ingressos esgotados na Europa, que superou até mesmo a “Dangerous tour”, com um total de 4,5 milhões de espectadores.

Somente seis anos depois de “HIStory” os fãs teriam acesso a material 100% inédito com “Invincible” (2001), o último lançamento de Jackson (em vida, diga-se de passagem; tem coisa vindo por aí). O problema é que, após anos de porradaria com o alto staff da Sony, Michael acabou tendo a divulgação do disco prejudicada, o que o fez ter uma vendagem considerada fraca para seus padrões: “só” 17 milhões. Canções vazaram na internet, cantor e gravadora não entraram em acordo sobre que single lançar primeiro, Michael se negou a gravar clipes para os primeiros compactos; enfim, tudo deu errado. E este álbum, que certamente não é o melhor de sua carreira, mas ostenta várias qualidades, acabou indo parar na sombra.

Superados os problemas, uma audição atenta mostra que “Invincible” tinha tudo para dar certo. Em dez anos, Michael resolveu ousar: gravou sozinho o instrumental de várias canções, entre elas “Unbreakable” – que abre o CD – e a ótima “You rock my world”, sucesso relativo à época de seu lançamento. Nas parcerias de composição, o trabalho é, regra geral, interessante: em “2000 Watts”, o R&B americano dá as caras com uma falta de sutileza que surpreende. “Invincible” segue na mesma linha, com seus arranjos crus que dão ênfase à rouquidão do cantor em sua fase madura.

Mas uma coisa é verdade: em faixas como “Cry”, “Butterflies”, “Break of dawn” e “The lost children”, já não consta a atmosfera quase etérea das gravações comerciais anteriores de Michael. Eram apenas músicas de rádio, iguais às que dezenas de outros cantores e cantoras da indústria americana lançavam de mês em mês. É por isso, talvez, que a qualidade de “Invincible” tenha sido tão questionada – mesmo a Rolling Stone, que nunca economizou nos elogios ao cantor, deu “apenas” três estrelas ao CD. Os efeitos do fim precoce da divulgação, após a ruptura com a Sony, resultou em vendas decrescentes: o álbum só chegou à primeira posição em treze países. No Brasil, nunca passou do oitavo lugar.

A morte


A decadência daqui em diante você, leitor, provavelmente conhece. Mais escândalos envolvendo abusos sexuais – nunca comprovados – surgiram, obrigando o cantor a atravessar meses e mais meses enfurnado no rancho Neverland, longe dos flashes da imprensa. Dívidas e mais dívidas resultantes de suas quebras de contrato e compras excêntricas fizeram-no desistir de alguns projetos milionários – Neverland incluído, logo após o fim do processo criminal.

Um documentário lançado em 2003 chamado “Living with Michael Jackson”, feito pelo jornalista Martin Bashir, mostrou ao mundo o agravo das condições psicológicas do cantor. Suas feições estavam ainda mais deformadas, resultado das intervenções cirúrgicas e dos problemas de saúde decorrentes do estresse; seus filhos só faziam aparições públicas com máscaras cobrindo seus rostos. Suas frases não tinham mais a profundidade de antes. Era um reflexo de que o astro pop, em sua maturidade, já não se reconhecia naquela carcaça. Ou então odiava tanto o que via que tentava, a todo custo, negar a própria identidade e, dela, afastar os próprios filhos.

Mesmo assim, em 2006, Michael foi agraciado com oito premiações no Guinness, entre elas o recorde de vendas de “Thriller” – que já passavam das 104 milhões de unidades – e os postos de primeiro artista a ganhar mais de cem milhões de dólares em um ano, a vender mais de 100 milhões de álbuns fora dos Estados Unidos e a acumular uma fortuna aproximada de 8 bilhões de dólares. Também compareceu a uma premiação de música no Japão e foi premiado como o artista-mor daquele País. Dois anos depois, ao completar seus 50 anos, ganharia de presente uma coletânea interativa – os fãs escolhiam que faixas deveriam entrar – lançada em vários países, “King of pop”. O mundo ainda o admirava.

O projeto de retornar à mídia seria concretizado em breve – só não se sabia quando. Michael andava compondo e gravando material novo em estúdios desde que fora absolvido de seu último escândalo sexual, em 2005. Dizia ter 30, 40, 50 possíveis faixas em mãos. Recentemente, havia aparecido com um aspecto mais saudável, menos esquálido e com o rosto menos avariado. Por isso sua morte em junho passado gerou tanta surpresa, tanto clamor popular, tantas manifestações e tributos em Londres, em Tóquio, em Nova Iorque, em Paris, até no Brasil. Ninguém esperava, ninguém queria.

Era neste ano de 2009 – mais precisamente em 10 de agosto –, que “Off the wall”, a estreia oficial de Michael no mundo pop, faria 30 anos. Não por coincidência, era também agora que o cantor pretendia sair do ostracismo e excursionar, após uma década sem presentear os fãs dessa forma. Havia impressionantes 50 shows marcados somente em Londres, e a expectativa era que outra penca de datas surgisse na Europa, na América e – quem sabe? – no Brasil. Seria uma turnê fenomenal, como nunca antes em sua carreira. Poderia vir acompanhada de um novo CD.

Foi triste ver que, para ele, o sonho acabou assim, provavelmente à base de um monte de remédios controlados e sob o estresse dos preparativos de uma turnê desde já estafante, naquele 25 de junho em Los Angeles. Dezenas de milhões de fãs, de todas as gerações, etnias, credos e nacionalidades possíveis, entram nesta segunda metade de ano com uma lacuna em suas referências musicais. Lacuna que só poderia ser preenchida por Michael Jackson, o tal “Rei do pop” que, nas palavras de um crítico da Rolling Stone, subiu como nenhum outro artista subiu na história da música. E afundou como ninguém o fez – e provavelmente fará.

Discografia

Álbuns solo (lançados pela Motown)

1. Got To Be There (1971)
2. Ben (1972)
3. Music and Me (1973)
4. Forever, Michael (1975)
5. The Best Of (1975)
6. One Day in your Life (1981)
7. Farewell my Summer Love (1984)

Álbuns solo

1. Off the Wall (1979)
2. Thriller (1982)
3. Bad (1987)
4. Dangerous (1991)
5. Invincible (2001)

Coletâneas, semi-coletâneas e edições especiais

1. Remember The Time (1992)
2. Anthology (1995)
3. HIStory: Past, Present and Future – Book I (1995)
4. Blood On The Dance Floor (1997)
5. The Millennium Collection (2000)
6. Greatest Hits: History - Vol I (2001)
7. Number Ones (2003)
8. The Ultimate Collection (2004)
9. The Essential (2005)
10. Visionary: The Video Singles (2006)
11. Thriller: 25th Aniversary Edition (2008)
12. King Of Pop (2008)

Dois discos essenciais

“Off the wall” (1979)
Classificação: *****
Por que ouvi-lo: Ao invés de recorrer a coletâneas e seleções informais na internet, você pode encontrar algumas das melhores faixas de Michael neste CD – sua estreia como artista livre das rédeas do pai.
Melhores faixas: “Don´t stop ´til you get enough”, “Rock wih you”, “Off the wall”.

“Thriller” (1982)
Classificação: *****
Por que ouvi-lo: É o grande clássico do cantor. Fora isso, um disco que diz muito sobre a época áurea da música pop, com arranjos visionários e que ditavam moda, ao invés de segui-la.
Melhores faixas: “Beat it”, “Billie jean”, “Thriller”

Nota de esclarecimento: A coluna desta semana é "reprise". Traz um texto que fiz, ao final de 2009, para a revista online Excesso de Magenta, sobre a trajetória de Michael Jackson. Espero que gostem. Caso queiram ler a revista, que está em processo de renovação e deve ter sua quinta edição lançada em breve, é só clicar aqui.

19.1.12

O remake faz sucesso - de novo

De Guto Lobato

Com história simples e cativante, versão 1993 de "Mulheres de Areia" alcança bons índices de audiência nas tardes da Globo


Dualismos, gêmea boa versus gêmea má, “quem matou?”, poluição ambiental, vida caiçara e paisagens praianas. A fórmula parece boba, mas, escrita e conduzida nas mãos certas, conseguiu se transformar em um curioso sucesso nas tardes semanais da Globo. Posta no “Vale a pena ver de novo” com a intenção de comemorar 60 anos da telenovela no Brasil, “Mulheres de Areia”, o remake da obra de Ivani Ribeiro exibido em 1993, voltou a se tornar fenômeno – frequentemente, suas personagens e tramas vão parar nos tópicos mais falados do Twitter, do mesmo jeito que dominaram as conversas cotidianas à época de sua primeira exibição. A audiência se aproxima até mesmo de “O Clone”, fenômeno de Glória Perez reprisado no mesmo horário no ano passado. Tem motivo?

Tanto num olhar de leigo quanto em um esforço crítico mais cuidadoso, a resposta é sim. E boa parte da justificativa vem da autoria: se a sinopse e o argumento de “Mulheres de Areia” parecem não empolgar à primeira leitura, basta assistir à obra para se convencer de que, mais uma vez, o melodrama “vence” o bom senso – ou seria o preconceito? – e se prova capaz de divertir o espectador sem recorrer a truques baixos do folhetinesco.

A história, simples (mas não simplória) como toda boa novela das 18h, está centrada nas figuras de Ruth e Raquel (Glória Pires), irmãs gêmeas de personalidades distintas que se envolvem com Marcos (Guilherme Fontes). Após conhecer Ruth, o lado “bom”, Marcos é enganado e se apaixona por Raquel, que está interessada em seu dinheiro e mantém encontros com o mau-caráter Wanderley (Paulo Betti), mesmo após casar com ele. Outros personagens, como o prefeito Breno (Daniel Dantas) e seu inescrupuloso vice (e pai de Marcos) Virgílio (Raul Cortez), o escultor deficiente Tonho da Lua (Marcos Frota) e o problemático casal Alaôr (Humberto Martins) e Malu (Viviane Pasmanter), também servem para dar consistência à narrativa, que se passa na fictícia cidade de Pontal D´Areia, próxima à cidade do Rio de Janeiro.

Para inserir tramas paralelas na história – cuja versão original fora exibida na TV Tupi, em 1973, com Eva Wilma como protagonista –, Ivani recorreu a outra obra sua, “O Espantalho” (1977); é dela que vêm as polêmicas envolvendo a poluição das praias de Pontal e as brigas entre Virgílio e os moradores locais, por exemplo. Cruzando referências, a “Mulheres de Areia” dos anos 1990 se tornou superior à original; um romance com tons melodramáticos, certamente, mas conduzido de forma envolvente pela direção de Wolf e pelo texto de Ivani – uma das mais queridas autoras dos tempos de ouro da ficção de TV.


O elenco também teve papel fundamental. Glória Pires, por exemplo, fez um trabalho quádruplo impressionante ao interpretar tanto Ruth e Raquel quanto Raquel fingindo-se Ruth e vice-versa; a postura singular e inconfundível de cada personagem é comparável, apenas, às gêmeas interpretadas por Eva Wilma na “Mulheres de Areia” original. Outros destaques são Raul Cortez como Virgílio Assunção e o famigerado Tonho da Lua, de Marcos Frota (foto) – a um tempo só afetado e natural, histérico e cativante, na pele de um jovem e talentoso portador de deficiência intelectual.

O grande diferencial de “Mulheres de Areia”, porém, é justamente não ter as mesmas qualidades de outros clássicos tarimbados da TV brasileira: a saber, a verve politizada/engajada, a aposta na verossimilhança, a exuberância das paisagens ou a megalomania dos cenários e tramas. Este pequeno clássico de Ivani Ribeiro é a prova de que o clichê menos é mais cabe perfeitamente à ficção seriada; tem como principal trunfo não o excesso, mas a simplicidade. Afinal, todo mundo – crianças, adultos, homens mulheres – dá umas boas risadas e se diverte com as estripulias de uma Raquel, a inocência de uma Ruth e os trejeitos de um Tonho da Lua. Real não é, mas diverte. E é isso que importa.
Link
Veja cenas de "Mulheres de Areia" aqui.

6.1.12

O primeiro passo em falso

De Guto Lobato

No instável “Mylo Xyloto”, Coldplay sinaliza crise de identidade ao alternar canções memoráveis a incursões pop de gosto duvidoso


Candidato natural a ocupar o posto de maior grupo de pop e rock do século XXI quando o U2 anunciar sua aposentadoria, o quarteto inglês Coldplay tem lutado para emplacar hits e lançar álbuns que vendem como água. Não é tarefa difícil para Chris Martin (vocal, guitarra, teclado), Guy Berryman (baixo), Jon Buckland (guitarra) e Will Champion (bateria): inicialmente comparados a Oasis, Radiohead e outros grupos nascidos na esteira do britpop, os músicos acabaram por criar uma sonoridade sofisticada e agradável aos ouvidos que, além de comercialmente bem sucedida, se tornou sinônimo do pop rock dos anos 2000.

Não era de surpreender, portanto, que o sucessor de “Viva la Vida or Death and All His Friends” (2008) fosse cercado de imensa expectativa; quatro discos depois, já na virada da década, o Coldplay pretendia fazer o que consigo mesmo? Chutar o pau da barraca ou arriscar no repetido – e já aceito? A resposta, não tão empolgante quanto Martin prometera a seus fãs, está em “Mylo Xyloto”, lançado em 2011 e produzido por Brian Eno.

Em geral, o álbum está longe de quebrar paradigmas sonoros do Coldplay: os refrões épicos, os falsetes de Martin, os riffs claramente inspirados em U2 e as letras densas, mas inteligíveis – tudo está aqui. A grande diferença está na forma, e não no conteúdo: com uma sonoridade marcada por timbres sintetizados e efeitos de gosto questionável para os fãs mais conservadores, o disco parece ter ido um pouco além da conta – além do que “X & Y” (2005), um trabalho de extremo bom gosto, ainda que distante do rock, teve coragem de apresentar.

Isso fica claro desde os singles “Paradise” e “Just like Heaven”: são belas canções, certo, mas... pessimamente arranjadas em estúdio, com destaque para os efeitos vocais na segunda e para a bateria sintetizada na primeira. Não à toa, soam, ao vivo, como canções inéditas – e muito superiores às de “Mylo Xyloto”. No mesmo rumo, “Princess of China”, a incursão pseudoétnica com participação da popstar Rihanna, mais parece tirada de um disco da própria que uma composição do Coldplay.

Ainda há, no entanto, muita coisa boa em meio aos caprichos estéticos do quarteto. Com arranjos inspirados e uma sonoridade que remete aos melhores momentos de “A Rush of Blood to the Head” (2002), “Major Minus”, “Don´t Let it Break Your Heart” e “Charlie Brown” são, no mínimo, memoráveis: bons exemplos de que, ao contrário do que se andou falando, o Coldplay não perdeu por completo sua verve criativa. Sozinhas, já valem todo o restante do álbum.

No final das contas, “Mylo Xyloto” deixa a impressão de que, caso desejem ser os carros-chefe do pop rock nas próximas décadas, Martin, Berryman, Buckland e Champion terão que, antes de tudo, se preocupar em consolidar suas referências e fazer discos estáveis, que reflitam uma forma específica de pensar (e fazer) música. Parece exagero, mas “Princess of China” e “Major Minus” simplesmente não deveriam estar no mesmo disco. O Coldplay passa por uma crise de identidade que Grammys, críticas favoráveis, 50 milhões de discos vendidos e shows em estádios lotados não são capazes de disfarçar. E “Mylo Xyloto” é a prova viva disso.

Nota: 7,5
Destaques: “Major minus”, “Paradise”, “Charlie Brown”
Baixe aqui.

3.1.12

O bom e (nada) velho Strokes

De Guto Lobato

Após cinco anos sem lançamentos, grupo que reavivou o rock de garagem aposta em múltiplas sonoridades com “Angles”


Pode-se afirmar, sem muito medo de soar exagerado, que poucos grupos representam tão bem o espírito dos anos 2000 quanto o The Strokes. Criado em Nova Iorque, o quinteto estreou com “Is This It” (2001), disco que reavivou o rock de garagem e o pôs no centro das atenções com décadas de atraso. O visual bagunçado, as letras simples, os instrumentais pegajosos e os vocais nitidamente inspirados nos anos 1960 e 1970 eram coisa que não se via junta – e prestando – há tempos; os lançamentos seguintes, “Room on Fire” (2003) e “First Impressions of Earth” (2006), reiteraram a impressão de que se estava diante de um grupo que, ao invés de olhar para o passado, iria influenciar gerações seguintes.

Mas o tempo passa – e, com ele, as modinhas da indústria fonográfica. O rótulo indie logo se provou uma armadilha e os grupos que pegaram carona nele, por sua vez, se revelaram superestimados; somente alguns, como os Arctic Monkeys e o Franz Ferdinand, conseguiram dar continuidade a seu trabalho sem soar como cópias de si mesmos. É aí que reside a importância de “Angles” (2011), primeira incursão do Strokes na década de 2010: provar ao ouvinte que Julian Casablancas (voz), Albert Hammond Jr. (guitarra), Nick Valensi (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fabrizio Moretti (bateria) ainda são capazes de se reinventar. E que, mesmo após cinco anos de expectativa, o disco consegue soar tão atual e promissor quanto “Is This It”.

Diferentemente do álbum anterior e sua animada "You Only Live Once", “Angles” começa em tom experimental com “Macchu Picchu”, que mescla uma sonoridade étnica ao típico som sujo e minimalista das guitarras de Valensi e Hammond Jr. Na sequência, porém, vêm dois hits naturais, característicos do grupo: “Under Cover Of Darkness”, espécie de pastiche modernizado dos tempos de “Is This It”, e a divertida “Two Kinds of Happiness”.

Com esse início, poderia se esperar um álbum dedicado a relembrar as qualidades de seus antecessores – mas os minutos seguintes quebram essa impressão. Resultado das experiências de carreira solo de Julian e Albert, além de projetos paralelos dos demais membros (que finalmente começaram a colaborar nas composições), as canções de “Angles” são, como o título do álbum sugere, representantes de direcionamentos cada vez mais divergentes.

De forma ainda mais explícita que nos tempos de “Room on Fire”, a matriz oitentista do Strokes marca presença em faixas como “Taken for a Fool” – provavelmente a melhor do álbum – e “Games”, repleta de sons sintetizados; “Gratisfaction”, por sua vez, apela para uma simplicidade quase infantil e se sai bem, com um dos refrões mais interessantes que o Strokes já compôs.

Para completar a mistura de referências, há canções mais suaves, como “Call me back” e “Life is Simple in the Moonlight”, que, na segunda metade dos 35 minutos de música, servem para acalmar os ânimos e identificar uma verve melódica nos músicos – sobretudo em Julian, que, tanto aqui como em seu trabalho solo, se revela um vocalista e letrista bem superior àquele dos tempos de “Last Nite”.

Em uma entrevista, às vésperas do lançamento de “Angles”, o guitarrista Nick Valensi afirmou que, a despeito de suas qualidades, o álbum não era capaz de corresponder às expectativas do público. Tão difícil concordar com ele quanto contradizê-lo – afinal, cinco anos não são fáceis de aguentar, e, depois de tantos atrasos e especulações, o que se quer é um trabalho, no mínimo, revolucionário. Certamente “Angles” não o é – mas chega perto, o que já é muito em tempos de poucas novidades e muitas auto-referências e jargões sonoros. Ouça sem medo de se decepcionar.

Nota: 9,5
Destaques: “Macchu Picchu”, “Taken for a Fool”, “Life is Simple in the Moonlight”
Baixe aqui.

Com atividades no cinema, no teatro e na literatura, Adriano Barroso completa 25 anos de carreira com projetos que, cada qual à sua maneira, propõem um novo olhar sobre o cotidiano local


Há quem diga que o melhor jeito de se fazer um trabalho sólido no campo artístico é se dedicar, de maneira exclusiva (e quase obsessiva), a um único ramo. Para Adriano Barroso, porém, a lógica é inversa: ao longo de mais de 25 anos de carreira, o paraense tem transitado pelo teatro, pelo cinema e pela literatura com naturalidade. Tudo com a intenção de, sem muita afetação ou apelo ao exotismo, enunciar a região amazônica e propor novos olhares sobre sua realidade.

A julgar pelas obras que tem desenvolvido, seja como ator, diretor, dramaturgo ou roteirista, a empreitada tem dado certo. No currículo de Adriano, estão curtas premiados, como “Matinta” (2010), de Fernando Segtowick, e “Ribeirinhos do Asfalto” (2011), de Jorane Castro, além de longas-metragens como “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios” (2011), de Beto Brant e Renato Ciasca, protagonizado por Camila Pitanga e rodado no Oeste do Estado.

Premiados e exibidos em festivais Brasil afora, os filmes apresentam, cada qual à sua maneira, as vivências cotidianas, embates sociais e lendas populares do Norte com uma linguagem universal. Enunciação que, sob a ótica das artes visuais e da resistência cultural, também se repete no livro “A paixão segundo o Gruta”, de autoria de Adriano, que narra os 43 anos de atividade do grupo de teatro icoaraciense Gruta, e em diversos espetáculos, como “Aldeotas”, em cartaz ao longo de 2011.

Em entrevista ao Cera de Ouvido, Barroso fala de seus atuais projetos e defende que a linguagem artística pode conferir visibilidade ao Pará e à Amazônia sem soar regionalista. “Não quero fazer cinema ou teatro paraense, quero fazer cinema ou teatro brasileiro”, exemplifica. “Os rótulos, prefiro deixá-los para quem quiser se comportar assim”.

Completaste 25 anos de carreira no teatro, no cinema e na literatura. Acreditas estar, agora, vivendo uma espécie de auge?

Posso dizer que estou vivendo um momento muito especial. Tenho viajado muito, consegui quebrar a barreira da distância que é trabalhar em nosso Estado. No Nordeste, estou filmando "O Periscópio"; também estou no teatro em cartaz com "Aldeotas", do Gero Camilo, e já fechei mais duas produções de longa metragem para 2012.

O filme “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios” foi rodado no Oeste do Estado. Que retrato achas que a obra faz da região em que foi filmada? Apesar de ser um filme de relacionamento, psicológico, também deve trazer algo sobre a realidade daquele local...

Tanto o Beto Brant como o Renato Ciasca são muito respeitosos. Eles fazem cinema com seriedade, talento e sensibilidade, fizeram questão de se misturar com as pessoas do lugar. No roteiro (e no livro do Marçal Aquino, que baseia a obra), havia um clima de insegurança no ar por causa da briga entre a comunidade e o pessoal do garimpo. Mas, quando o Beto e o Renato chegaram a Santarém, perceberam havia uma briga local entre os índios e os madeireiros, porque eles estavam invadindo as terras e desmatando sem controle. Em um dos embates, a coisa saiu de controle e um grupo de índios acabou tocando fogo em uma balsa cheia de toras de madeira. Ato que rendeu aos lideres do movimento indígena (Dadá e Dinael) um processo judicial, pois os madeireiros estimaram a perda em mais de R$ 2 bilhões de reais. Os dois foram jurados de morte e andam com proteção policial. Quando o Beto soube do acontecido, meteu a mão no roteiro e colocou o imbróglio no filme. Está lá, no filme, toda a briga e até mesmo a reconstituição do ato das balsas. Isso e outras ações pequenas dos diretores demonstram o quanto eles atuaram com respeito à região.

Leste a obra do Marçal Aquino? Como foi tua preparação para viver teu personagem? O que achaste, de forma geral, da adaptação? Por teres vínculo tanto com cinema/teatro quanto com literatura, deve ser interessante trabalhar com as duas coisas e ver esse processo de transposição...

Antes de ser convidado para fazer o filme eu já era um leitor do Marçal Aquino. Em meu escritório, os livros dele figuram em um lugar especial, aquele dos mais lidos e relidos. Também já era fã do Beto Brant, em meu top 10 do cinema figuram dois filmes do Beto (“O Invasor” e “Ação entre amigos”), então quando eles me convidaram achei que foi um presente dos céus, em uma única tacada estaria trabalhando com dois dos meus ídolos do cinema e da literatura. Aprendi muito com todo o processo, o que o Beto e Renato fizeram com o livro foi lindo demais. Aprendi, sobretudo, que adaptar uma obra literária precisa de uma certa liberdade, pois são duas linguagens diferentes e duas obras singulares. Quando vi o filme pronto, caí pra trás. A montagem propõe aos expectadores que vivam junto o filme, preencham as lacunas. Nada é dado de graça. É cinema vivo e partilhado com o público, para que os dois tenham experiências vivas. Certamente esse foi o trabalho que mais tirei dividendos. Foi uma reunião de artistas. Todos os atores do elenco dividiram experiências, trocaram projetos futuros. De lá também nasceu música, além de projetos de teatro que juntarão no ano que vem também a Camila Pitanga e o Gustavo Machado.


Outros trabalhos de relevância rodados na nossa região foram “Ribeirinhos do Asfalto” e “Matinta” (foto acima). Qual foi o papel destas duas obras em te ajudar a conquistar visibilidade como artista? E quais retornos já conquistaste a partir delas?

O Fernando Segtowick e a Jorane Castro são os dois grandes cineastas dessa cidade, o trabalho deles vem amadurecendo ao longo do tempo. Fiquei feliz de poder participar desse amadurecimento. Com o Fernando, já é o terceiro filme de nossa parceria; com a Jorane foi meu primeiro trabalho, e espero que haja muito mais. Os dois filmes estão fazendo excelentes carreiras em festivais pelo Brasil, e é lá que as coisas acontecem – muitos contatos, trocas e, claro, mostrar nossa cara com filmes de respeito como esses dá um gás legal. Foi por meio destes filmes que consegui obter convites para as produções que estou fazendo hoje.

De forma geral, vês alguma vantagem na linguagem de curta-metragem à hora de retratar universos culturais ainda “exóticos” pra muita gente do País – como a Amazônia?

Pois é, desse papo de exotismo não gosto muito, não. Tanto o “Ribeirinhos” como o “Matinta” são filmes diferentes, mostram nossa região sem esse tom exagerado de regionalismo barato. Apesar de o “Matinta” ser um filme mais mitológico, a historia que contamos é universal, bem como essas histórias de vampiros e bruxas que o cinema comercial explora bastante. Contamos uma lenda que o público nacional pode alcançar sem precisar conhecer a região. No “Ribeirinhos”, apresentamos uma Belém urbana com todos os problemas e as vantagens disso, mas sobretudo contamos uma história em que a cidade é o cenário.

Achas que o audiovisual e o teatro locais estão cumprindo um papel interessante no sentido de apresentar imagens menos estereotipadas do cotidiano do Pará?

Estamos fazendo cinema, de verdade. Não há a preocupação de grifar o exótico da região. A preocupação está sempre na fábula que vamos contar e na técnica de filmar isso bem. Com o advento do cinema digital, nosso trabalho em termos financeiros foi facilitado, estamos produzindo bem mais. Mas é claro que não posso deixar de falar dos incentivos que ainda são bem precários por essas bandas. O poder publico – estadual e municipal – precisa fazer sua parte, porque estamos fazendo a nossa. Não quero fazer cinema ou teatro paraense, quero fazer cinema ou teatro brasileiro. Os rótulos, prefiro deixá-los para quem quiser se comportar assim.

Recentemente, lançaste o “A paixão segundo o Gruta”, livro que conta a trajetória do grupo homônimo, nascido na segunda metade do século XX em Icoaraci. De onde veio o interesse por sua história?

O livro fala de um grupo de teatro que vem resistindo ao tempo contra todas as dificuldades. É o segundo grupo de teatro de maior longevidade do Brasil – o primeiro é um grupo de santa Catarina – em atividade. Então reuni esforços para contar como esse grupo se iniciou, no final da década de 60, e como ele vem se organizando até os dias de hoje. É um grupo que foi perseguido pela censura na década de 1970, excomungado pela igreja católica na década de 1980, foi para as ruas protestar pela falta de políticas culturais no Estado, em 1990, e entrou nos anos 2000 antenado com todas as realidades por que passava a sociedade da virada do século. É no mínimo, uma boa história a ser contada.

Lançaste o livro em formato digital, ainda sem editora. Acreditas que este formato vai ajudar na divulgação e na obtenção de patrocínio para lançá-lo?

O livro nasceu como um E-book porque o mercado editorial brasileiro não está tão aberto assim a novos escritores. Acredito que ter disponibilizado parte da obra pela internet não atrapalhará em nada – quem gosta de ler jamais abrirá mão do objeto livro. Seu cheiro, seu peso, sua capacidade de manuseamento são imbatíveis. Minha ideia é tentar captar em leis de incentivo para lançá-lo no ano que vem em uma edição do autor. Se um empresário se interessar e quiser fazer parte dessa história, estou às ordens.

Como é o novo trabalho que estás filmando em Pernambuco? E que outros projetos tens em vista para 2012?


Esse novo filme tem uma linguagem bem peculiar – trata de uma comunidade de pescadores que tem sua rotina modificada pela chegada de um estrangeiro sobrevivente de um acidente aéreo, tudo é visto sob o ponto de vista de um solitário habitante de um submarino. Estamos filmando em uma ilha deserta, em Barra de Serinhaém. Depois desse filme, volto a Belém para mais uma temporada do espetáculo “Aldeotas”, que faço junto ao Ailson Braga (foto acima), e logo em seguida começo a preparação para as filmagens do longa “Órfãos do Eldorado”, que é um filme baseado no romance homônimo do Milton Hatoum.

Com história bizarra, que aborda a vingança e a luta pela identidade, cineasta espanhol investe em novos gêneros narrativos em “A Pele que Habito”

Seja para os críticos mais ferrenhos, seja para o público que vai, desavisado, assistir a um de seus filmes à espera de um dramalhão latino, Pedro Almodóvar é o tipo de cineasta que preza por escapar do óbvio. Mesmo com base em seus traços mais comuns - a obsessão por histórias femininas, as cores estouradas, a sexualidade explosiva das personagens etc. - sempre há algo novo no que sai de sua mente; prova disso é sua filmografia, que alterna a comédia, a ação, o romance e o drama sem dilemas existenciais. E é investindo num dos mais arriscados extremos da narrativa de cinema - o suspense - que o espanhol presenteia seus fãs com "A Pele que Habito", uma de suas mais inovadoras obras desde "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

Diferentemente de seu antecessor "Abraços Partidos" (2009), "A Pele que Habito" não tem como fundo central uma história de vida marcada por tragédias - seu foco está em apontar, precisamente, suas piores consequências no presente. Para isso, ninguém melhor que a figura de Robert Ledgard (Antonio Banderas), badalado cirurgião plástico que, com apoio da governanta Marília (Marisa Paredes), mantém uma jovem paciente como refém em sua bucólica mansão no interior da Espanha.

Paciente, aliás, é eufemismo: Vera (Elena Anaya) é uma cobaia. Desde a morte de sua esposa, que teve a pele dilacerada por queimaduras em um acidente e cometeu suicídio ao ver seu reflexo, Robert tem uma obsessão: desenvolver uma pele perfeita, sensível ao toque, mas resistente a qualquer agressão. De alguma forma, Vera foi a "escolhida" e chegou à situação em que se encontra - presa em um cômodo, vestida com um collant cor de pele, filmada e vigiada enquanto pratica yoga e lê livros fornecidos pelo médico.

Por trás de anos de convivência e experimentos, porém, Robert, Vera e Marília têm vínculos e histórias que vão muito além dos primeiros 30 minutos de filme. Almodóvar, aos poucos, escancara ao espectador uma terrível narrativa de vingança e obsessão - que culminará na libertação tardia de Vera, um ser em constante luta contra a perda de sua consciência e sua identidade.

Como muita gente, fui assistir a "A Pele que Habito" à espera de uma história policialesca, mas com toques de humor. Marca registrada do diretor espanhol, os momentos que tendem ao riso são, porém, mais raros, o que confere à obra uma dupla responsabilidade: flertar com o suspense, o terror e até a ficção científica sem cair na breguice e, ao mesmo tempo, convencer o espectador de que a história de Robert, Vera e Marília faz sentido - mesmo que de uma forma um tanto acidentada.

Para isso, Almodóvar desenvolveu um roteiro - baseado no famoso romance policial "Mygale", de Thierry Jonquet - repleto de reviravoltas. Inicialmente um monstro interessado em desumanizar sua cobaia, Robert tem sua personalidade detalhada na segunda metade do filme; ao invés de recair em psicologismos, porém, busca-se mostrar que a relação do médico com sua paciente, mais que uma releitura de Frankestein para o século XXI, diz respeito a um antigo desejo de retomar, para si, aquilo que jamais havia sido seu.

Com inspirações do cinema noir e um afastamento das cores fortes e vivas, o visual de "A Pele que Habito" faz jus à proposta de revisitar uma história de horror; paralelamente, as atuações firmes - e, quando necessário, assustadoras - de Banderas, Paredes e da sensual Elena Anaya reforçam as dubiedades morais do trio e preparam o espectador para o trágico desfecho da trama, em que, sabe-se lá como, tudo volta a seu estado original - ao menos aquilo que está dentro do corpo de Vera, e vivo em seu passado.

No final das contas, "A Pele que Habito" é o típico caso em que uma história de suspense acaba se revelando mais profunda e instigante do que o rótulo sugere: mais que um filme sobre a escalada maníaco-obsessiva de um cientista, trata-se de uma narrativa de identidade das mais surpreendentes que Almodóvar já pôde fazer. Uma obra, enfim, tocante, mesmo quando tenta se apresentar como mera literatura policial dos anos 1980.

Coluna de 24/12 do jornal "Amazônia". Leia o original aqui.

Veja o trailer do filme aqui.

17.12.11

Convite à melancolia

De Guto Lobato

Em mais uma investida sombria, “Melancolia”, de Lars Von Trier, discute posturas humanas diante da ameaça do fim dos tempos


Dez minutos de slow motion ao som de Wagner. Uma noiva, bela e irremediavelmente melancólica, tenta caminhar, mas está presa a galhos que a puxam ao solo. Pássaros mortos caem ao seu redor. Uma mãe e um filho tentam fugir, inutilmente. Uma paisagem solitária, verde; um planeta se aproxima e está prestes a atingir a Terra. O mundo inteiro e até a natureza parecem temê-lo - menos a jovem. Quando finalmente ocorre a colisão, voltamos à realidade: trata-se de um filme, e um filme em atos.

Afetação é pouco, mas, quando contemplado sem que se busquem significados ou entrelinhas, o prólogo de 'Melancolia', direção de Lars Von Trier, que fica em cartaz até amanhã (18), no Cine Oi Estação, se apresenta como uma obra de arte independente – mais que abertura de filme, a sequência sintetiza a proposta de base do cineasta ao anunciar sua visão do fim dos tempos em forma de cinema: nada de finais felizes.

Após o início perturbador, a narrativa se desdobra e começamos a entender quem são as personagens. Tudo gira em torno de duas figuras – aparentemente – opostas. A noiva da primeira cena é Justine (Kirsten Dunst, em um desempenho impressionante), jovem que está prestes a se casar, mas não consegue controlar seus impulsos depressivos. A única pessoa capaz de ajudá-la é sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que mora em uma grande propriedade junto ao marido e decide presenteá-la com a cerimônia.

Não bastasse a tendência de Justine enxergar tudo com um desânimo patológico, um fenômeno arriscado está prestes a acontecer: um planeta, sugestivamente chamado Melancholia, está se aproximando da Terra – e há risco de que ele colida, ao invés de apenas passar perto dela.

A primeira metade do filme, então, se concentra no dia do matrimônio, em que Justine, Claire e o restante da família ainda ignoram o risco de morte em – falso – clima de festa. A segunda, nos dias que se antecedem ao evento que decidirá o futuro da humanidade.

Cineasta dos mais 'malditos', sempre mal interpretado por suas declarações – a última brincou com um suposto lado bom do nazismo (!) e rendeu polêmica em Cannes –, Von Trier é, de fato, um cara que não aprecia gracejos. Suas obras, em geral, têm uma carga pesada e buscam retratar arquétipos negativos em suas personagens, como se vê em 'Anticristo' (2009) e 'Dogville' (2003).

Desta vez, porém, o cineasta se superou: é desafiador assistir a 'Melancolia' e não sentir, ali, a profunda angústia do autor, um depressivo há anos em luta contra a própria mente; aquela que todos nós sentimos, vez ou outra, quando diante de uma rotina inescapavelmente frágil e sem sentido.

As irmãs Justine e Claire protagonizam posturas humanas opostas diante do fim. Ao invés de lutar e sofrer com a aproximação de Melancholia, Justine fica fascinada pelo planeta. Para ela, não há sentido em brigar contra ele; nem mesmo seu casamento e um emprego estável justificam a vida. Já Claire é seu contrário: embora finja transmitir controle absoluto sobre tudo, mal consegue dormir com a ideia de que seu filho não irá usufruir do que a vida tem para lhe oferecer.

A execução impecável do filme é capaz de criar uma expectativa enorme, apesar de o prólogo anunciar um final trágico. A condução cadenciada das cenas e da caracterização das tramas em nenhum momento tira a atenção, pelo contrário: de maneira engenhosa, Von Trier oferece paisagens fotográficas e diálogos extremamente inteligentes que desconstroem a aparência de ordem emocional nas vidas de Justine e Claire.

Ao final, quando Melancholia está prestes a chegar à órbita da Terra, muito pouco importa para aquelas irmãs: cada qual decidirá onde se abrigar, como rezar, como lidar com o risco da morte. E nós, espectadores, nos perguntamos que 'graça' teria vivenciar aquilo. Sabe-se lá; o que importa é que, para Von Trier e para as protagonistas, finais felizes não têm graça mesmo - e não fazem sentido, mesmo para os que mais amam a vida.

Coluna do jornal Amazônia de hoje, 17.12. Leia a original aqui: http://www.portalorm.com.br/amazonia/

10.12.11

Inovação sutil no horário das 18h

De Guto Lobato

Com história e visual que fogem ao comum, “A Vida da Gente” promove quebra de paradigmas nas novelas da Globo


Quando “Cordel Encantado” (2011), a bem sucedida mistura de conto de fadas e narrativa popular sertaneja de Duca Rachid e Thelma Guedes, teve seu último capítulo exibido, muita gente – incluindo eu – torceu o nariz; desde o remake de “Sinhá Moça” (2006), não aparecia novela tão bem feita e instigante no horário das 18h da Rede Globo. Pegando carona na boa audiência, porém, uma pequena obra-prima de ficção tem conseguido conquistar crítica e público: “A Vida da Gente” (2011), que acaba de entrar em seu terceiro mês de exibição.

Sincera com o telespectador, ao mostrar-lhe justamente o mais banal do cotidiano, ao invés de mergulhar em grandes floreios, a trama da carioca Lícia Manzo tem cativado muita gente – inclusive quem detesta TV. Por quê?, alguns poderiam perguntar; uma possível resposta é que, depois de tanto dramalhão folhetinesco, nossos olhos estão atrás de algo mais suave e palpável quando sentamos no sofá. Nada melhor, para isso, que propor uma novela que, de maneira discreta, quebra uma série de paradigmas da televisão.

Em sua estreia como autora de novelas de horário nobre, a carioca Lícia Manzo fez isso, a começar pela sinopse: ao ser ambientada no Rio Grande do Sul, a trama propõe um sempre bem vindo deslocamento do eixo Rio-São Paulo. Na linha de frente, a história dos meio-irmãos Ana (Fernanda Vasconcellos), Rodrigo (Rafael Cardoso) e Manu (Marjorie Estiano), é, paradoxalmente, tão incomum quanto possível: logo após ficar grávida e ter uma filha de Rodrigo, seu namorado, a jovem tenista Ana sofre um acidente e entra em coma.

Manu, com seu bom caráter e sua dedicação à família, decide ajudar o meio-irmão a criar a filha e também acaba se apaixonando por ele. Anos depois, porém, Ana desperta – e terá de se recuperar, reconquistar a filha Júlia e entender que, num indesejável jogo do acaso, acabou sendo substituída pela irmã na vida de Rodrigo.

Muita gente discute sobre o que, afinal, faz com que as telenovelas sejam peça tão fundamental no quebra-cabeça da identidade brasileira. Duas possíveis razões: assistir a elas nos ajuda, vá lá, a esquecer os problemas do cotidiano; por outro lado, a ficção também nos faz pensar a respeito dele, e pensar melhor – é nessa segunda categoria que “A vida da gente” se encaixa, numa posição que, antes, era ocupada sozinha pelas telenovelas das 21h de Manoel Carlos.

A vida de Rodrigo, Ana e Manu, pontuada por figuras como a da dominadora Eva (Ana Beatriz Nogueira), mãe das garotas, e do médico Lúcio (Thiago Lacerda), que cuidou da tenista, é o fio central da narrativa – que, paralelamente, aborda questões como os atritos entre pais e filhos e o divórcio. O que é mais curioso: mesmo falando de tudo isso, “A Vida da Gente” não é uma obra panfletária ou questionadora. Pelo contrário: pretende ser “apenas” uma caixa de ressonância do dia a dia do brasileiro – o que está claro desde seu título até os diálogos e cenas vividos por suas personagens.

Além do cuidado na execução da história, Lícia buscou, junto ao diretor Jayme Monjardim, dar a ela um tratamento visual diferenciado. A fotografia combina as belas paisagens de Gramado e Porto Alegre a uma série de ângulos inovadores; mesmo sequências banais, como a em que a irmã de sangue de Rodrigo, Nanda (Maria Eduarda), perde a sobrinha Júlia dentro de um shopping center, investem na ideia de que a imagem televisiva não precisa ser óbvia para ser entendida.

A combinação de uma história dramática – e não melodramática – e uma estética cuidadosa – e não afetada – costuma ser encontrada no cinema, mas não faz parte do manual básico da telenovela. Por quebrar tabus de forma tão delicada, “A Vida da Gente” tem mantido boa audiência, com picos de até 27 pontos, mesmo dando rumos nada previsíveis a suas tramas. Resta, agora, torcer para que a qualidade se mantenha nos próximos três meses – e que, nos moldes de “Cordel Encantado”, a obra prove que, mais que um gênero popularesco de ficção, a novela pode, e deve, ser vista como uma legítima arte de brincar com o cotidiano.

Assista a algumas cenas de "A vida da gente" aqui.

Coluna publicada no jornal Amazônia de 10.12.

2.12.11

O metal do Pará circula pelo Brasil

De Guto Lobato

Após descobrir novos-antigos fãs em turnê pelo Norte e Nordeste, Madame Saatan planeja viajar pelo resto do Brasil em 2012


A vida do quarteto de metal paraense Madame Saatan andou corrida – e gratificante – nos últimos dois meses. Primeiro, um rápido passeio pelo Norte, com shows em Belém, Castanhal, Manaus e Porto Velho. Depois, capitais do Nordeste como Fortaleza, Salvador e Natal. Durante a execução da agenda de mais de 15 apresentações, ficou uma impressão: a de que, passados oito anos de estrada, o grupo conseguiu formar um público fiel nos quatro cantos do País. “As pessoas já cantam as músicas conosco. Nunca vou deixar de me impressionar com isso”, diz a vocalista Sammliz.

Nada surpreendente. Com uma carreira conduzida sem atropelos, marcada por poucos – e certeiros – passos no sempre traiçoeiro mundo da música brasileira alternativa, Sammliz, Ed Guerreiro (guitarra), Ivan Vanzar (bateria) e Ícaro Suzuki (baixo) conquistaram respeito da crítica especializada e provaram que a música do Pará não se restringe a folclore, carimbó e brega. Os três discos na bagagem do grupo – “Tao do Caos” (2005), “Madame Saatan” (2008) e “Peixe Homem” (2011) – são exemplos disso: cada qual, à sua maneira, reflete as experiências e o amadurecimento que o quarteto (nascido quinteto) tem vivido, das apresentações em pequenos teatros e casas de show de Belém à mudança para São Paulo.

Com o lançamento de “Peixe Homem”, produzido por Paulo Anhaia (Velhas Virgens) e masterizado nos Estados Unidos por Alan Douches (Aerosmith e Misfits), o grupo reafirmou sua mistura de heavy, trash e prog metal e ritmos regionais – que, em faixas como “Sete Dias”, “Rio Vermelho”, “Sonâmbula” e “Respira”, se prova uma fórmula em que valeu a pena apostar. Apesar do som mais redondinho e produzido, as canções se mostram poderosas como nos tempos de “Tao do Caos”, para alívio dos fãs antigos – e para alegria do público que tem acompanhado os shows recentes de promoção do álbum, cada vez mais lotados.

Em um bate papo com a coluna, feito em pleno final da tour pelo Nordeste e às vésperas da última apresentação do ano, no interior de São Paulo, Sammliz fala sobre a repercussão de “Peixe Homem”, a participação do Madame em festivais de música de diferentes regiões e a gravação do videoclipe de “Respira”, mais nova música de trabalho do grupo. Além disso, a cantora e letrista toca em um tema espinhoso: a dificuldade em conseguir locais para tocar... em Belém. “Tem que ter muita paciência para lidar com o preconceito”, alfineta.

Como tem sido a recepção do "Peixe Homem" nos shows?
As pessoas já cantam as músicas conosco. Nunca vou deixar de me impressionar com isso. O número de fã clubes pelo Brasil também tem aumentado – o que nos deixa impressionados e muito felizes.

Por que a opção pela tour começar no Norte e Nordeste?
A meta é tocar no Brasil inteiro. A tour começou pelo Norte, passou pelo Nordeste e agora vamos partir para o Rio de Janeiro, São Paulo e para cidades no Sul. Ano que vem, a ideia é participar de muitos festivais.

Como foi, até agora, tocar em diferentes regiões do Brasil?
Em 2011, a banda tem tocado sozinha e com artistas dos mais variados estilos; não raro, somos a única banda de rock em algumas programações, o que nos possibilita dialogar com um público que normalmente não iria a um evento só com bandas de rock. Participar de festivais junto a artistas de MPB, rap, música regional e pop tem nos ajudado a ampliar nosso público.

Recentemente, vocês passaram por dificuldade para conseguir um espaço para lançar o "Peixe Homem" em Belém. No geral, vocês ainda sentem a falta de interesse dos envolvidos na política cultural em ajudar na divulgação de grupos como o Madame?
Nosso disco foi patrocinado pelo Conexão Vivo através da Lei Semear e nosso show teve apoio do Governo do Estado, mas nada veio fácil. A banda tem oito anos e tivemos que trabalhar muito para ter nosso lugar ao sol em nosso próprio Estado. O rock e o rap são meio que os "patinhos feios" nesse mercado cultural local e, para se fazer representar, é preciso trabalhar dobrado. Para fazer nosso evento de lançamento no Píer das Onze Janelas (em setembro), tivemos que ter muita paciência para lidar com o preconceito de alguns dos responsáveis pela administração do local. Tivemos que ouvir pérolas como: "Público roqueiro é diferenciado e, portanto, precisa ser controlado", coisa desse nível. Batemos o pé, tínhamos todos os melhores argumentos ao nosso lado e o evento foi realizado com sucesso. Cinco mil pessoas nos ajudaram, harmoniosamente, a realizar um legítimo evento de rock. Foi realmente incrível. Lamentável que eventos desse tipo, direcionados para uma numerosa parcela de público jovem, consumidora desse estilo de música, sejam isolados.

A decisão de ir morar em São Paulo teve a ver com a busca por novas oportunidades. De maneira geral, vocês se adaptaram bem à cidade?
Adoramos São Paulo e nos adaptamos muito bem à dinâmica dela. Por enquanto, não pensamos em morar em outra cidade.

Desde que se mudaram, quantas vezes conseguiram dar um pulo em Belém? Estão satisfeitos com essa frequência?
Voltamos para tocar e para as festas de fim de ano. Mas, com certeza, se pudéssemos voltaríamos com mais frequência!

Uma das coisas que chama a atenção em "Peixe Homem" é a ausência de "baladas" – no primeiro, havia canções mais suaves, como "Duo". Isso ocorreu naturalmente ou foi algo mais, digamos, intencional?
O que é cuidadosamente pensado por nós são nossas estratégias de circulação e outras ações – a música, nunca. O ato de compor, para nós, não é cerebral, ele parte das vísceras. Deixamos as coisas jorrarem.

De maneira geral, que evolução vocês sentem entre "Peixe Homem" e o primeiro disco?
São dois discos bem diferentes. O primeiro reunia basicamente músicas que faziam parte do “Ubu Rei – uma odisséia em bundalelê” – espetáculo cuja trilha sonora produzimos, no início da carreira –, não havia um fio condutor que amarrasse tudo. “Peixe Homem” veio quatro anos depois de termos lançado um disco composto por músicas de uma fase antiga – já naquela época havíamos mudado bastante. Com a mudança pra outro Estado, isso ficou mais acentuado. O resultado pode ser visto em um disco mais denso, direto e pesado.

Já dá para afirmar qual é o primeiro hit de “Peixe Homem” – nos moldes de “Apocalipse”, do primeiro álbum?
“Respira”, que também rendeu o primeiro clipe, já é hit e é cantada a plenos pulmões pelo público!

Como foi gravar o clipe de "Respira"? Vocês deram um banho nas roupas e nos instrumentos... a experiência de tocar num rio deve ter sido única!
Trabalhar com P.R. Brown [diretor do vídeo] foi a melhor experiência que tivemos. Adoramos gravar clipes e eles sempre são feitos com custo perto do zero, com ajuda de amigos profissionais. Nesse, mais uma vez, fomos colocados em uma situação complicada – Aquela parte do rio era imprópria para banho, cheirava muito mal! Ficamos horas imersos na lama e tivemos vários ferimentos por causa de galhos e espinhos. Tive febre. E quer saber? Foi ótimo. Faríamos tudo de novo.

Coluna editada, publicada no jornal Amazônia de 03.12, aqui.

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27.11.11

O bom e velho pop britânico de Noel

De Guto Lobato


“High Flying Birds” reafirma qualidades do mais velho dos Gallagher e aponta que separação do Oasis pode ter seu lado positivo

Confesso que, quando o Oasis resolveu anunciar seu fim em 2009, depois de um quebra-quebra homérico, a decepção veio acompanhada daquela sensação de “eu sabia”. Desde que, no início da adolescência, elegi o quinteto liderado pelos irmãos Liam e Noel Gallagher como referência musical dos anos 1990, já dava para sentir que, juntos, eles eram como uma bomba-relógio prestes a explodir – o que acabou acontecendo em plena turnê do excelente “Dig out your soul” (2008).

Depois de o Beady Eye, espécie de pós-Oasis liderado por Liam junto a ex-integrantes do grupo, ter surgido e lançado um ótimo disco em fevereiro – “Different Gear, Still Speeding” –, chegou a vez de Noel, que foi quem oficialmente “abandonou o barco” dois anos atrás, se aventurar em carreira solo com “High Flying Birds”. O resultado: um dos melhores álbuns pop do ano – e um sinal de que, contrariando o senso comum, talvez os irmãos Gallagher funcionem melhor separados.

Uma olhada rápida pela discografia do Oasis aponta que, se Liam é o lado mais roqueiro – e algo irresponsável, é preciso reconhecer – do grupo, Noel faz jus à posição de irmão mais velho: com uma veia assumidamente pop, investe em letras mais elaboradas, além de cantar de um jeito mais meloso – o que, para uns, dá a (falsa) impressão de que ele até o faz melhor que o caçula. A distinção começou a ficar mais clara depois que Liam entrou nas composições, na altura do experimental “Standing on the shoulder of giants” (2000); escrevendo, principalmente, os dois atuam como polos opostos.

Ao se comparar “High Flying Birds” ao Beady Eye e seu disco de estréia, fica claro que se está diante de dois artistas que, no final das contas, pouco têm em comum. Em resposta à ágil “Four letter word” do grupo de Liam, Noel abre seu trabalho com “Everybody´s on the run”, espécie de “D´you know what i mean” do século XXI.

Com arranjos visivelmente mais trabalhados e um distanciamento da crueza sonora do britrock dos anos 1990, Noel brinca com todas suas referências: “AKA... Broken Arrow”, “AKA... What a life” e “Soldier boys and Jesus freaks” exalam o pop modernizado que o guitarrista e cantor já apresentava em suas autorais desde “Heathen Chemistry” (2002), mesmo que sem o consentimento do irmão, enquanto que “I´d pick you every time” é uma baladinha folk nos moldes de “She is love”, do disco supracitado do Oasis.

Duas canções originalmente compostas para o grupo que fez história nos anos 1990, por sinal, também marcam presença aqui: a bela – e finalmente bem arranjada – “Stop the clocks” e “(I wanna live in) a record machine”, que deixa o ouvinte, enfim, sentir a falta do vozeirão arranhado de Liam nas canções do irmão. A principal virtude do disco, porém, está nos momentos mais suaves: “If i had a gun”, comparada – exageradamente – pela crítica à clássica “Wonderwall”, tem um dos mais belos refrões do disco, e “The death of you and me” é, talvez, a mais bem arranjada composição de Noel até hoje.

Mais por gosto pessoal que por consciência e razão, sempre estive “do lado” de Liam no Oasis; preferia as canções por ele cantadas e considerava Noel um bom compositor, mas nada mais que isso. A alma e a identidade do Oasis, enfim, sempre pareciam estar com o caçula instável e problemático, que sumia do palco na hora H e deixava o irmão desafinar ao vivo nos hits dos tempos de “(What´s the story) Morning Glory” – basta lembrar do terrível Acústico MTV do grupo.

A grande virtude de “High Flying Birds”, nesse sentido, é ter permitido a mim e a todo fã perceber o quanto Noel, mais que um líder do principal grupo britânico de rock dos últimos 20 anos, é um compositor e músico de qualidade. A levar em consideração o nível de sua estréia, deve-se esperar que ele – assim como Liam e seu Beady Eye – pouco a pouco convença o mundo a enterrar de vez o Oasis e perceber que os Gallagher, separados, são mais – e melhores.

Coluna original, publicada em 26.11 no jornal Amazônia, aqui.

Confira o vídeo de "The death of you and me":
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19.11.11

A bomba-relógio do pop no Pará

De Guto Lobato

Prestes a lançar primeiro disco, Gaby Amarantos trilha um caminho – nada ortodoxo – que pode levar o Estado ao topo do mercado musical brasileiro

Amá-la ou odiá-la é mais uma questão de referência que de gosto musical. Para quem tem o olhar viciado e o preconceito arraigados à pele, não passa de uma máquina xerox que mescla o submundo do brega à música pop, aproveitando-se da pitada regional para lucrar. Para quem busca reconhecer o talento e a identidade musicais vindos da periferia, no entanto, é uma bomba-relógio prestes a explodir no mundo pop. Gaby Amarantos, 32, nascida e criada no Jurunas, em Belém (PA), é, de fato – parafraseando seu primeiro apelido na mídia –, o mais próximo de uma Beyoncé com DNA paraense. Mas quer ser muito mais que isso – e tem buscado os meios corretos, jamais ortodoxos, de fazê-lo.

Cantora performática, com um vozeirão de fazer inveja a muita cantora de soul, Gaby começou a carreira cantando em igrejas e bares, mas logo encontrou no tecnobrega, em ascensão nos subúrbios de Belém na virada do milênio, território fértil para transitar entre o pastiche e a criatividade. Junto à banda Tecnoshow, emplacou dezenas de versões de hits internacionais em batida regional. Usou e abusou das festas de aparelhagem – eventos populares que mesclam pirataria, cultura, música e pirotecnia audiovisual, com apoio de intelectuais e músicos de fora do eixo –, fazendo seu nome nas pick-ups dos DJs locais. E não tem vergonha em dizer que nasceu, cresceu e vive dessa cultura que emerge do subúrbio, mas ganha contornos mercadológicos bem claros em tempo de valorização do underground: “sou fruto de um novo modelo de mercado”, diz.

Cansada dos covers e do ar folclórico que ganhou após receber a alcunha de “Beyoncé do Pará”, no entanto, Gaby decidiu ir além. Resolveu entrar em estúdio e se aliar a diversos músicos e compositores de renome do Pará, dando a seu brega um toque autoral mais forte. A primeira investida a sair na mídia foi a canção de trabalho “Xirley”, lançada em outubro junto a um videoclipe (divertidíssimo) dirigido por Priscilla Brasil – que também já esteve à frente dos vídeos de “Vela” e “Devorados”, do quarteto de metal paraense Madame Saatan. A música, escrita pelo pernambucano Zé Cafofinho, conta a história de uma artista que “enfeitiça” e sobe na vida apoiada pelo mercado informal e suas personagens típicas. Após uma estréia de sucesso no Portal da MTV, “Xirley” ainda rendeu a Gaby um convite para se apresentar no VMB (Video Music Brasil) 2011, ao lado de outros artistas populares do Brasil.

Em entrevista exclusiva à coluna, a cantora fala da repercussão de seu primeiro single – será que assim pode ser chamado? –, além de lembrar de suas muitas referências musicais da juventude e, claro, alfinetar o modelo de negócio do mercado fonográfico (“a fiscalização do Ecad é falha”, alega), tão ultrapassado quanto o preconceito do público com a música brega. A julgar pela expectativa nacional em torno de “Treme”, o álbum de estréia a ser lançado no primeiro semestre de 2012 – e que, em breve, deve vazar na rede e nas banquinhas de pirateiros do centro de Belém – , Gaby, com sua música e seu talento, deve lançar mais um punhado de terra em cima do caixão dessa indústria.

O que achaste da recepção de “Xirley”? Poucas horas depois do lançamento oficial, o vídeo já estava nas redes sociais e no portal da MTV entre os preferidos...

Fiquei muito feliz com a recepção da “Xirley” e de sentir que as pessoas estão começando a entender esse novo conceito que meu trabalho traz. O vídeo, por sinal, já esta disponível na meu site (www.gabyamarantos.com).

Tuas primeiras aparições na mídia nacional ainda vinham com aquela roupagem folclórica de “Beyoncé do Pará”. Já passado algum tempo, que imagem pretendes transmitir com tua produção autoral?

A imagem que tenho, a minha verdade! Sou Gaby Amarantos e as pessoas já entenderam que a “Beyoncé do Pará” foi uma brincadeira que deu certo e me abriu muitas portas.

O clipe de “Xirley” toca num aspecto bem característico para quem é do Pará – a pirataria e a cultura do sample promovida pelas aparelhagens. Chegas a te considerar uma beneficiada pelo mercado informal?

Sou fruto de um novo modelo de mercado. O tecnobrega vem para ensinar uma grande lição e para reinventar a música, democratizando e sugerindo novos artistas para o público.

Recentemente falaste numa entrevista ao jornal “O Dia” que “direito autoral é coisa do passado”. Explica melhor...

Sou filiada a uma associação de compositores e tenho carteira de compositora, tudo dentro da lei. Só que de nada me serve, pois a fiscalização do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) é falha. Ganho mais visibilidade ao disponibilizar minhas músicas na internet – a arrecadação só funciona para os medalhões da música. É muita negligência e injustiça.

Tua trajetória como artista, sabe-se, não começou no brega. Além do gênero, quais são tuas influências ou artistas de referência?

Venho de uma família de sambistas. Comecei a cantar na igreja católica e depois fui para a MPB – o brega sempre esteve presente na minha vida, já que, no Jurunas, a gente respira esse som. Eu sou uma artista de mente aberta, que gosta de ouvir de tudo, desde jazz até metal. Gosto de tantos estilos que fica difícil enumerar.

Tocaste no VMB 2011 em uma espécie de medley que apresentou diferentes vertentes populares do Brasil. O que achaste dos gêneros apresentados?

Eu fiquei muito feliz com o convite da MTV e do Miranda, diretor do show. Fui tratada com muito carinho e respeito por meus parceiros das outras bandas. Me senti uma privilegiada em poder representar a cultura do meu Estado.

E como está a preparação pro lançamento do “Treme”, teu primeiro álbum oficial? O que já podes adiantar dele?

A “Xirley” é uma prévia do disco, que traz, além de tecnobrega – com várias experimentações –, uma pitada de cúmbia, tecnolambada e carimbó. O repertório é de músicas autorais e tem parcerias com grandes compositores como Felipe Cordeiro, Eliaquim Rufino, Dona Onete, Ronaldo Silva, Veloso Dias, Thalma de Freitas e Iara Renó. Outro destaque são as participações de Dona Onete e Fernanda Takai. O resto é segredo!

Tens previsão de excursionar com o disco? E de preparar novos clipes? Qual vai ser a nova música de trabalho, depois de “Xirley”?

Estamos na montagem do novo show, que já deve começar a circular em 2012. E estamos produzindo um novo clipe – que também é surpresa!

Leia a coluna original, editada no jornal Amazônia, aqui.

Confira o vídeo de "Xirley":

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13.11.11

Dramalhão das onze

De Guto Lobato


Com roteiro mais ágil e muito melodrama, remake de “O Astro” reafirma horário das 23h como chance de inovação para a Globo

“Chamem a imprensa, chamem os fotógrafos! Ah, e tragam as algemas, faço questão das algemas. Eu estou preparada para o escárnio da opinião pública...” Olhares horrorizados na sala da mansão da família Hayalla. Rindo com afetação e dando tapinhas nos ombros da polícia, Clô (Regina Duarte), a matriarca, assume, diante de todos os suspeitos, ter matado o poderoso Salomão. A cena antológica pôs fim ao mistério da autoria do golpe que tirou a vida do empresário de “O Astro” – novelão à mexicana das 23h da Globo que serviu para mostrar como um remake pode, em vários momentos, subverter o original e torná-lo ainda mais interessante.

Encerrada na última sexta-feira de outubro, 28, a telenovela surgiu para reavivar a grade noturna da emissora e, de quebra, comemorar os 60 anos da teledramaturgia no Brasil. Nada mais adequado para isso que o folhetim de Janete Clair: sucesso de audiência, a “O Astro” de 1977 tinha como maior virtude sua breguice intencional. Fugindo à moda da época, investia em uma história mirabolante, com direito a um protagonista mágico-trambiqueiro-executivo, Herculano Quintanilha, e uma trama policialesca, que disseminou o famoso “quem matou” muito antes da Odete Roitman de “Vale Tudo” (1988).

A adaptação ficou a cargo do diretor Mauro Mendonça Filho e dos autores Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro – que, desde o início, prometeram viajar pesado nas referências literárias e no melodrama, sem perder o pé na atualidade. Para isso, algumas mudanças: primeiro no número de capítulos, que foi cortado pela metade, dando mais agilidade à trama. Outro foco foi deixar a obra com uma estética moderna – incluindo as inúmeras sequências de sexo e violência que o horário permitiu. Ah, e o assassino de Salomão Hayalla foi modificado, só para dar uma pitada a mais de suspense à trama.

A cena em que Clô Hayalla se revelou uma homicida da alta sociedade foi um bom indicador da evolução do remake de “O Astro”. Ao invés de apenas um matador, os autores foram além dos dualismos e investiram em uma série de criminosos: o bobalhão Youssef (José Rubens Chachá) e sua esposa Nádia (Vera Zimmermann), além do mordomo Inácio (Pascoal da Conceição), também deram uma mãozinha para mandar Salomão para o além. Mas foi Clô que cometeu o crime “com a mais absoluta tranquilidade”, para libertar o filho Márcio (Thiago Fragoso) de seu pai ditador.

Curiosidades da "O Astro" de 2011
- Mais macabra, a abertura de 1977 vinha com vários símbolos estranhos, como cartas de astrologia e até uma imagem de Baphomet – tirada da sequência a pedido de Janete Clair;
- Na obra original, quem matava Salomão era Felipe Cerqueira, o trambiqueiro amante de Clô;
- A história de Herculano foi baseada na trajetória do ex-ministro argentino Luiz Lopez Rega, conhecido como “El Brujo” na administração de Juan Perón;
- Antes do remake, a telenovela foi reprisada no Festival 15 Anos, em 1980, e também em um compacto de 20 capítulos, em 1981;
- A versão de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro alcançou média de 20 pontos, com picos de até 30 pontos – desempenho excelente para os padrões da Globo;


Além de Regina Duarte, que calou a boca da crítica com sua interpretação, e do carisma de Rodrigo Lombardi, o “novo” Herculano Quintanilha, havia outros destaques no elenco dos vilões, como Humberto Martins e Marco Ricca, geniais nas peles de Neco e Samir. Do lado dos mocinhos, rostos famosos e sempre bons, como Daniel Dantas, Rosamaria Murtinho e Alinne Moraes. Outros destaques foram a trilha sonora e a dinâmica de suspense, atraentes a ponto de ter deixado o horário das 23h com audiência semelhante ao das novelas das 18h e 19h.

Houve quem criticasse a falta de verossimilhança, os mil e um truques de Herculano para sumir do mapa (a cena do pássaro virou hit no Youtube), os vais e vens do bruxo com Amanda e até o bizarro tema de abertura, “Bijuteria”, de João Bosco (o mesmo da original). Não entenderam a mensagem. Embora filmada em 2011, “O Astro” não deixa de ser uma obra datada; não pretende discutir política ou violência urbana, e sim falar de dramas familiares, assassinatos, romances. Olhando desse jeito, a obra teve um resultado excelente – e indica que ver telenovelas à meia-noite não é um hábito tão ultrapassado assim, mesmo nesses tempos de Youtube e televisão sob demanda. Não à toa, já se confirmou o próximo remake das 23h: “Gabriela” (1975), a ser adaptada por Walcyr Carrasco. Nada difícil, a julgar por “O Astro”, é pensar que ele poderá se equiparar (ou superar) a original.

Nota: Pessoal, por motivos que vão muito além da minha parca compreensão desse mundo, a partir de agora este blog vai ser o espaço, digamos, "oficial" da coluna cultural. Espero que os - poucos, mas aparentemente fiéis - leitores gostem. Prometo me dedicar mais a isto aqui e trazer entrevistas, dicas e outras coisas a mais, além das resenhas. Até a semana que vem. O tema vai ser música.