Em mais uma investida sombria, “Melancolia”, de Lars Von Trier, discute posturas humanas diante da ameaça do fim dos tempos
Dez minutos de slow motion ao som de Wagner. Uma noiva, bela e irremediavelmente melancólica, tenta caminhar, mas está presa a galhos que a puxam ao solo. Pássaros mortos caem ao seu redor. Uma mãe e um filho tentam fugir, inutilmente. Uma paisagem solitária, verde; um planeta se aproxima e está prestes a atingir a Terra. O mundo inteiro e até a natureza parecem temê-lo - menos a jovem. Quando finalmente ocorre a colisão, voltamos à realidade: trata-se de um filme, e um filme em atos.
Afetação é pouco, mas, quando contemplado sem que se busquem significados ou entrelinhas, o prólogo de 'Melancolia', direção de Lars Von Trier, que fica em cartaz até amanhã (18), no Cine Oi Estação, se apresenta como uma obra de arte independente – mais que abertura de filme, a sequência sintetiza a proposta de base do cineasta ao anunciar sua visão do fim dos tempos em forma de cinema: nada de finais felizes.
Após o início perturbador, a narrativa se desdobra e começamos a entender quem são as personagens. Tudo gira em torno de duas figuras – aparentemente – opostas. A noiva da primeira cena é Justine (Kirsten Dunst, em um desempenho impressionante), jovem que está prestes a se casar, mas não consegue controlar seus impulsos depressivos. A única pessoa capaz de ajudá-la é sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que mora em uma grande propriedade junto ao marido e decide presenteá-la com a cerimônia.
Não bastasse a tendência de Justine enxergar tudo com um desânimo patológico, um fenômeno arriscado está prestes a acontecer: um planeta, sugestivamente chamado Melancholia, está se aproximando da Terra – e há risco de que ele colida, ao invés de apenas passar perto dela.
A primeira metade do filme, então, se concentra no dia do matrimônio, em que Justine, Claire e o restante da família ainda ignoram o risco de morte em – falso – clima de festa. A segunda, nos dias que se antecedem ao evento que decidirá o futuro da humanidade.
Cineasta dos mais 'malditos', sempre mal interpretado por suas declarações – a última brincou com um suposto lado bom do nazismo (!) e rendeu polêmica em Cannes –, Von Trier é, de fato, um cara que não aprecia gracejos. Suas obras, em geral, têm uma carga pesada e buscam retratar arquétipos negativos em suas personagens, como se vê em 'Anticristo' (2009) e 'Dogville' (2003).
Desta vez, porém, o cineasta se superou: é desafiador assistir a 'Melancolia' e não sentir, ali, a profunda angústia do autor, um depressivo há anos em luta contra a própria mente; aquela que todos nós sentimos, vez ou outra, quando diante de uma rotina inescapavelmente frágil e sem sentido.
As irmãs Justine e Claire protagonizam posturas humanas opostas diante do fim. Ao invés de lutar e sofrer com a aproximação de Melancholia, Justine fica fascinada pelo planeta. Para ela, não há sentido em brigar contra ele; nem mesmo seu casamento e um emprego estável justificam a vida. Já Claire é seu contrário: embora finja transmitir controle absoluto sobre tudo, mal consegue dormir com a ideia de que seu filho não irá usufruir do que a vida tem para lhe oferecer.
A execução impecável do filme é capaz de criar uma expectativa enorme, apesar de o prólogo anunciar um final trágico. A condução cadenciada das cenas e da caracterização das tramas em nenhum momento tira a atenção, pelo contrário: de maneira engenhosa, Von Trier oferece paisagens fotográficas e diálogos extremamente inteligentes que desconstroem a aparência de ordem emocional nas vidas de Justine e Claire.
Ao final, quando Melancholia está prestes a chegar à órbita da Terra, muito pouco importa para aquelas irmãs: cada qual decidirá onde se abrigar, como rezar, como lidar com o risco da morte. E nós, espectadores, nos perguntamos que 'graça' teria vivenciar aquilo. Sabe-se lá; o que importa é que, para Von Trier e para as protagonistas, finais felizes não têm graça mesmo - e não fazem sentido, mesmo para os que mais amam a vida.
Coluna do jornal Amazônia de hoje, 17.12. Leia a original aqui: http://www.portalorm.com.br/amazonia/
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2 réplicas:
Sensacional esta coluna! Relatou muito bem a essência do filme! Parabéns!
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