Após descobrir novos-antigos fãs em turnê pelo Norte e Nordeste, Madame Saatan planeja viajar pelo resto do Brasil em 2012
A vida do quarteto de metal paraense Madame Saatan andou corrida – e gratificante – nos últimos dois meses. Primeiro, um rápido passeio pelo Norte, com shows em Belém, Castanhal, Manaus e Porto Velho. Depois, capitais do Nordeste como Fortaleza, Salvador e Natal. Durante a execução da agenda de mais de 15 apresentações, ficou uma impressão: a de que, passados oito anos de estrada, o grupo conseguiu formar um público fiel nos quatro cantos do País. “As pessoas já cantam as músicas conosco. Nunca vou deixar de me impressionar com isso”, diz a vocalista Sammliz.
Nada surpreendente. Com uma carreira conduzida sem atropelos, marcada por poucos – e certeiros – passos no sempre traiçoeiro mundo da música brasileira alternativa, Sammliz, Ed Guerreiro (guitarra), Ivan Vanzar (bateria) e Ícaro Suzuki (baixo) conquistaram respeito da crítica especializada e provaram que a música do Pará não se restringe a folclore, carimbó e brega. Os três discos na bagagem do grupo – “Tao do Caos” (2005), “Madame Saatan” (2008) e “Peixe Homem” (2011) – são exemplos disso: cada qual, à sua maneira, reflete as experiências e o amadurecimento que o quarteto (nascido quinteto) tem vivido, das apresentações em pequenos teatros e casas de show de Belém à mudança para São Paulo.
Com o lançamento de “Peixe Homem”, produzido por Paulo Anhaia (Velhas Virgens) e masterizado nos Estados Unidos por Alan Douches (Aerosmith e Misfits), o grupo reafirmou sua mistura de heavy, trash e prog metal e ritmos regionais – que, em faixas como “Sete Dias”, “Rio Vermelho”, “Sonâmbula” e “Respira”, se prova uma fórmula em que valeu a pena apostar. Apesar do som mais redondinho e produzido, as canções se mostram poderosas como nos tempos de “Tao do Caos”, para alívio dos fãs antigos – e para alegria do público que tem acompanhado os shows recentes de promoção do álbum, cada vez mais lotados.
Em um bate papo com a coluna, feito em pleno final da tour pelo Nordeste e às vésperas da última apresentação do ano, no interior de São Paulo, Sammliz fala sobre a repercussão de “Peixe Homem”, a participação do Madame em festivais de música de diferentes regiões e a gravação do videoclipe de “Respira”, mais nova música de trabalho do grupo. Além disso, a cantora e letrista toca em um tema espinhoso: a dificuldade em conseguir locais para tocar... em Belém. “Tem que ter muita paciência para lidar com o preconceito”, alfineta.
Como tem sido a recepção do "Peixe Homem" nos shows?
As pessoas já cantam as músicas conosco. Nunca vou deixar de me impressionar com isso. O número de fã clubes pelo Brasil também tem aumentado – o que nos deixa impressionados e muito felizes.
Por que a opção pela tour começar no Norte e Nordeste?
A meta é tocar no Brasil inteiro. A tour começou pelo Norte, passou pelo Nordeste e agora vamos partir para o Rio de Janeiro, São Paulo e para cidades no Sul. Ano que vem, a ideia é participar de muitos festivais.
Como foi, até agora, tocar em diferentes regiões do Brasil?
Em 2011, a banda tem tocado sozinha e com artistas dos mais variados estilos; não raro, somos a única banda de rock em algumas programações, o que nos possibilita dialogar com um público que normalmente não iria a um evento só com bandas de rock. Participar de festivais junto a artistas de MPB, rap, música regional e pop tem nos ajudado a ampliar nosso público.
Recentemente, vocês passaram por dificuldade para conseguir um espaço para lançar o "Peixe Homem" em Belém. No geral, vocês ainda sentem a falta de interesse dos envolvidos na política cultural em ajudar na divulgação de grupos como o Madame?
Nosso disco foi patrocinado pelo Conexão Vivo através da Lei Semear e nosso show teve apoio do Governo do Estado, mas nada veio fácil. A banda tem oito anos e tivemos que trabalhar muito para ter nosso lugar ao sol em nosso próprio Estado. O rock e o rap são meio que os "patinhos feios" nesse mercado cultural local e, para se fazer representar, é preciso trabalhar dobrado. Para fazer nosso evento de lançamento no Píer das Onze Janelas (em setembro), tivemos que ter muita paciência para lidar com o preconceito de alguns dos responsáveis pela administração do local. Tivemos que ouvir pérolas como: "Público roqueiro é diferenciado e, portanto, precisa ser controlado", coisa desse nível. Batemos o pé, tínhamos todos os melhores argumentos ao nosso lado e o evento foi realizado com sucesso. Cinco mil pessoas nos ajudaram, harmoniosamente, a realizar um legítimo evento de rock. Foi realmente incrível. Lamentável que eventos desse tipo, direcionados para uma numerosa parcela de público jovem, consumidora desse estilo de música, sejam isolados.
A decisão de ir morar em São Paulo teve a ver com a busca por novas oportunidades. De maneira geral, vocês se adaptaram bem à cidade?
Adoramos São Paulo e nos adaptamos muito bem à dinâmica dela. Por enquanto, não pensamos em morar em outra cidade.
Desde que se mudaram, quantas vezes conseguiram dar um pulo em Belém? Estão satisfeitos com essa frequência?
Voltamos para tocar e para as festas de fim de ano. Mas, com certeza, se pudéssemos voltaríamos com mais frequência!
Uma das coisas que chama a atenção em "Peixe Homem" é a ausência de "baladas" – no primeiro, havia canções mais suaves, como "Duo". Isso ocorreu naturalmente ou foi algo mais, digamos, intencional?
O que é cuidadosamente pensado por nós são nossas estratégias de circulação e outras ações – a música, nunca. O ato de compor, para nós, não é cerebral, ele parte das vísceras. Deixamos as coisas jorrarem.
De maneira geral, que evolução vocês sentem entre "Peixe Homem" e o primeiro disco?
São dois discos bem diferentes. O primeiro reunia basicamente músicas que faziam parte do “Ubu Rei – uma odisséia em bundalelê” – espetáculo cuja trilha sonora produzimos, no início da carreira –, não havia um fio condutor que amarrasse tudo. “Peixe Homem” veio quatro anos depois de termos lançado um disco composto por músicas de uma fase antiga – já naquela época havíamos mudado bastante. Com a mudança pra outro Estado, isso ficou mais acentuado. O resultado pode ser visto em um disco mais denso, direto e pesado.
Já dá para afirmar qual é o primeiro hit de “Peixe Homem” – nos moldes de “Apocalipse”, do primeiro álbum?
“Respira”, que também rendeu o primeiro clipe, já é hit e é cantada a plenos pulmões pelo público!
Como foi gravar o clipe de "Respira"? Vocês deram um banho nas roupas e nos instrumentos... a experiência de tocar num rio deve ter sido única!
Trabalhar com P.R. Brown [diretor do vídeo] foi a melhor experiência que tivemos. Adoramos gravar clipes e eles sempre são feitos com custo perto do zero, com ajuda de amigos profissionais. Nesse, mais uma vez, fomos colocados em uma situação complicada – Aquela parte do rio era imprópria para banho, cheirava muito mal! Ficamos horas imersos na lama e tivemos vários ferimentos por causa de galhos e espinhos. Tive febre. E quer saber? Foi ótimo. Faríamos tudo de novo.
Coluna editada, publicada no jornal Amazônia de 03.12, aqui.
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