Com atividades no cinema, no teatro e na literatura, Adriano Barroso completa 25 anos de carreira com projetos que, cada qual à sua maneira, propõem um novo olhar sobre o cotidiano local
Há quem diga que o melhor jeito de se fazer um trabalho sólido no campo artístico é se dedicar, de maneira exclusiva (e quase obsessiva), a um único ramo. Para Adriano Barroso, porém, a lógica é inversa: ao longo de mais de 25 anos de carreira, o paraense tem transitado pelo teatro, pelo cinema e pela literatura com naturalidade. Tudo com a intenção de, sem muita afetação ou apelo ao exotismo, enunciar a região amazônica e propor novos olhares sobre sua realidade.
A julgar pelas obras que tem desenvolvido, seja como ator, diretor, dramaturgo ou roteirista, a empreitada tem dado certo. No currículo de Adriano, estão curtas premiados, como “Matinta” (2010), de Fernando Segtowick, e “Ribeirinhos do Asfalto” (2011), de Jorane Castro, além de longas-metragens como “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios” (2011), de Beto Brant e Renato Ciasca, protagonizado por Camila Pitanga e rodado no Oeste do Estado.
Premiados e exibidos em festivais Brasil afora, os filmes apresentam, cada qual à sua maneira, as vivências cotidianas, embates sociais e lendas populares do Norte com uma linguagem universal. Enunciação que, sob a ótica das artes visuais e da resistência cultural, também se repete no livro “A paixão segundo o Gruta”, de autoria de Adriano, que narra os 43 anos de atividade do grupo de teatro icoaraciense Gruta, e em diversos espetáculos, como “Aldeotas”, em cartaz ao longo de 2011.
Em entrevista ao Cera de Ouvido, Barroso fala de seus atuais projetos e defende que a linguagem artística pode conferir visibilidade ao Pará e à Amazônia sem soar regionalista. “Não quero fazer cinema ou teatro paraense, quero fazer cinema ou teatro brasileiro”, exemplifica. “Os rótulos, prefiro deixá-los para quem quiser se comportar assim”.
Completaste 25 anos de carreira no teatro, no cinema e na literatura. Acreditas estar, agora, vivendo uma espécie de auge?
Posso dizer que estou vivendo um momento muito especial. Tenho viajado muito, consegui quebrar a barreira da distância que é trabalhar em nosso Estado. No Nordeste, estou filmando "O Periscópio"; também estou no teatro em cartaz com "Aldeotas", do Gero Camilo, e já fechei mais duas produções de longa metragem para 2012.
O filme “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios” foi rodado no Oeste do Estado. Que retrato achas que a obra faz da região em que foi filmada? Apesar de ser um filme de relacionamento, psicológico, também deve trazer algo sobre a realidade daquele local...
Tanto o Beto Brant como o Renato Ciasca são muito respeitosos. Eles fazem cinema com seriedade, talento e sensibilidade, fizeram questão de se misturar com as pessoas do lugar. No roteiro (e no livro do Marçal Aquino, que baseia a obra), havia um clima de insegurança no ar por causa da briga entre a comunidade e o pessoal do garimpo. Mas, quando o Beto e o Renato chegaram a Santarém, perceberam havia uma briga local entre os índios e os madeireiros, porque eles estavam invadindo as terras e desmatando sem controle. Em um dos embates, a coisa saiu de controle e um grupo de índios acabou tocando fogo em uma balsa cheia de toras de madeira. Ato que rendeu aos lideres do movimento indígena (Dadá e Dinael) um processo judicial, pois os madeireiros estimaram a perda em mais de R$ 2 bilhões de reais. Os dois foram jurados de morte e andam com proteção policial. Quando o Beto soube do acontecido, meteu a mão no roteiro e colocou o imbróglio no filme. Está lá, no filme, toda a briga e até mesmo a reconstituição do ato das balsas. Isso e outras ações pequenas dos diretores demonstram o quanto eles atuaram com respeito à região.
Leste a obra do Marçal Aquino? Como foi tua preparação para viver teu personagem? O que achaste, de forma geral, da adaptação? Por teres vínculo tanto com cinema/teatro quanto com literatura, deve ser interessante trabalhar com as duas coisas e ver esse processo de transposição...
Antes de ser convidado para fazer o filme eu já era um leitor do Marçal Aquino. Em meu escritório, os livros dele figuram em um lugar especial, aquele dos mais lidos e relidos. Também já era fã do Beto Brant, em meu top 10 do cinema figuram dois filmes do Beto (“O Invasor” e “Ação entre amigos”), então quando eles me convidaram achei que foi um presente dos céus, em uma única tacada estaria trabalhando com dois dos meus ídolos do cinema e da literatura. Aprendi muito com todo o processo, o que o Beto e Renato fizeram com o livro foi lindo demais. Aprendi, sobretudo, que adaptar uma obra literária precisa de uma certa liberdade, pois são duas linguagens diferentes e duas obras singulares. Quando vi o filme pronto, caí pra trás. A montagem propõe aos expectadores que vivam junto o filme, preencham as lacunas. Nada é dado de graça. É cinema vivo e partilhado com o público, para que os dois tenham experiências vivas. Certamente esse foi o trabalho que mais tirei dividendos. Foi uma reunião de artistas. Todos os atores do elenco dividiram experiências, trocaram projetos futuros. De lá também nasceu música, além de projetos de teatro que juntarão no ano que vem também a Camila Pitanga e o Gustavo Machado.
Outros trabalhos de relevância rodados na nossa região foram “Ribeirinhos do Asfalto” e “Matinta” (foto acima). Qual foi o papel destas duas obras em te ajudar a conquistar visibilidade como artista? E quais retornos já conquistaste a partir delas?
O Fernando Segtowick e a Jorane Castro são os dois grandes cineastas dessa cidade, o trabalho deles vem amadurecendo ao longo do tempo. Fiquei feliz de poder participar desse amadurecimento. Com o Fernando, já é o terceiro filme de nossa parceria; com a Jorane foi meu primeiro trabalho, e espero que haja muito mais. Os dois filmes estão fazendo excelentes carreiras em festivais pelo Brasil, e é lá que as coisas acontecem – muitos contatos, trocas e, claro, mostrar nossa cara com filmes de respeito como esses dá um gás legal. Foi por meio destes filmes que consegui obter convites para as produções que estou fazendo hoje.
De forma geral, vês alguma vantagem na linguagem de curta-metragem à hora de retratar universos culturais ainda “exóticos” pra muita gente do País – como a Amazônia?
Pois é, desse papo de exotismo não gosto muito, não. Tanto o “Ribeirinhos” como o “Matinta” são filmes diferentes, mostram nossa região sem esse tom exagerado de regionalismo barato. Apesar de o “Matinta” ser um filme mais mitológico, a historia que contamos é universal, bem como essas histórias de vampiros e bruxas que o cinema comercial explora bastante. Contamos uma lenda que o público nacional pode alcançar sem precisar conhecer a região. No “Ribeirinhos”, apresentamos uma Belém urbana com todos os problemas e as vantagens disso, mas sobretudo contamos uma história em que a cidade é o cenário.
Achas que o audiovisual e o teatro locais estão cumprindo um papel interessante no sentido de apresentar imagens menos estereotipadas do cotidiano do Pará?
Estamos fazendo cinema, de verdade. Não há a preocupação de grifar o exótico da região. A preocupação está sempre na fábula que vamos contar e na técnica de filmar isso bem. Com o advento do cinema digital, nosso trabalho em termos financeiros foi facilitado, estamos produzindo bem mais. Mas é claro que não posso deixar de falar dos incentivos que ainda são bem precários por essas bandas. O poder publico – estadual e municipal – precisa fazer sua parte, porque estamos fazendo a nossa. Não quero fazer cinema ou teatro paraense, quero fazer cinema ou teatro brasileiro. Os rótulos, prefiro deixá-los para quem quiser se comportar assim.
Recentemente, lançaste o “A paixão segundo o Gruta”, livro que conta a trajetória do grupo homônimo, nascido na segunda metade do século XX em Icoaraci. De onde veio o interesse por sua história?
O livro fala de um grupo de teatro que vem resistindo ao tempo contra todas as dificuldades. É o segundo grupo de teatro de maior longevidade do Brasil – o primeiro é um grupo de santa Catarina – em atividade. Então reuni esforços para contar como esse grupo se iniciou, no final da década de 60, e como ele vem se organizando até os dias de hoje. É um grupo que foi perseguido pela censura na década de 1970, excomungado pela igreja católica na década de 1980, foi para as ruas protestar pela falta de políticas culturais no Estado, em 1990, e entrou nos anos 2000 antenado com todas as realidades por que passava a sociedade da virada do século. É no mínimo, uma boa história a ser contada.
Lançaste o livro em formato digital, ainda sem editora. Acreditas que este formato vai ajudar na divulgação e na obtenção de patrocínio para lançá-lo?
O livro nasceu como um E-book porque o mercado editorial brasileiro não está tão aberto assim a novos escritores. Acredito que ter disponibilizado parte da obra pela internet não atrapalhará em nada – quem gosta de ler jamais abrirá mão do objeto livro. Seu cheiro, seu peso, sua capacidade de manuseamento são imbatíveis. Minha ideia é tentar captar em leis de incentivo para lançá-lo no ano que vem em uma edição do autor. Se um empresário se interessar e quiser fazer parte dessa história, estou às ordens.
Como é o novo trabalho que estás filmando em Pernambuco? E que outros projetos tens em vista para 2012?
Esse novo filme tem uma linguagem bem peculiar – trata de uma comunidade de pescadores que tem sua rotina modificada pela chegada de um estrangeiro sobrevivente de um acidente aéreo, tudo é visto sob o ponto de vista de um solitário habitante de um submarino. Estamos filmando em uma ilha deserta, em Barra de Serinhaém. Depois desse filme, volto a Belém para mais uma temporada do espetáculo “Aldeotas”, que faço junto ao Ailson Braga (foto acima), e logo em seguida começo a preparação para as filmagens do longa “Órfãos do Eldorado”, que é um filme baseado no romance homônimo do Milton Hatoum.
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