Após cinco anos sem lançamentos, grupo que reavivou o rock de garagem aposta em múltiplas sonoridades com “Angles”
Pode-se afirmar, sem muito medo de soar exagerado, que poucos grupos representam tão bem o espírito dos anos 2000 quanto o The Strokes. Criado em Nova Iorque, o quinteto estreou com “Is This It” (2001), disco que reavivou o rock de garagem e o pôs no centro das atenções com décadas de atraso. O visual bagunçado, as letras simples, os instrumentais pegajosos e os vocais nitidamente inspirados nos anos 1960 e 1970 eram coisa que não se via junta – e prestando – há tempos; os lançamentos seguintes, “Room on Fire” (2003) e “First Impressions of Earth” (2006), reiteraram a impressão de que se estava diante de um grupo que, ao invés de olhar para o passado, iria influenciar gerações seguintes.
Mas o tempo passa – e, com ele, as modinhas da indústria fonográfica. O rótulo indie logo se provou uma armadilha e os grupos que pegaram carona nele, por sua vez, se revelaram superestimados; somente alguns, como os Arctic Monkeys e o Franz Ferdinand, conseguiram dar continuidade a seu trabalho sem soar como cópias de si mesmos. É aí que reside a importância de “Angles” (2011), primeira incursão do Strokes na década de 2010: provar ao ouvinte que Julian Casablancas (voz), Albert Hammond Jr. (guitarra), Nick Valensi (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fabrizio Moretti (bateria) ainda são capazes de se reinventar. E que, mesmo após cinco anos de expectativa, o disco consegue soar tão atual e promissor quanto “Is This It”.
Diferentemente do álbum anterior e sua animada "You Only Live Once", “Angles” começa em tom experimental com “Macchu Picchu”, que mescla uma sonoridade étnica ao típico som sujo e minimalista das guitarras de Valensi e Hammond Jr. Na sequência, porém, vêm dois hits naturais, característicos do grupo: “Under Cover Of Darkness”, espécie de pastiche modernizado dos tempos de “Is This It”, e a divertida “Two Kinds of Happiness”.
Com esse início, poderia se esperar um álbum dedicado a relembrar as qualidades de seus antecessores – mas os minutos seguintes quebram essa impressão. Resultado das experiências de carreira solo de Julian e Albert, além de projetos paralelos dos demais membros (que finalmente começaram a colaborar nas composições), as canções de “Angles” são, como o título do álbum sugere, representantes de direcionamentos cada vez mais divergentes.
De forma ainda mais explícita que nos tempos de “Room on Fire”, a matriz oitentista do Strokes marca presença em faixas como “Taken for a Fool” – provavelmente a melhor do álbum – e “Games”, repleta de sons sintetizados; “Gratisfaction”, por sua vez, apela para uma simplicidade quase infantil e se sai bem, com um dos refrões mais interessantes que o Strokes já compôs.
Para completar a mistura de referências, há canções mais suaves, como “Call me back” e “Life is Simple in the Moonlight”, que, na segunda metade dos 35 minutos de música, servem para acalmar os ânimos e identificar uma verve melódica nos músicos – sobretudo em Julian, que, tanto aqui como em seu trabalho solo, se revela um vocalista e letrista bem superior àquele dos tempos de “Last Nite”.
Em uma entrevista, às vésperas do lançamento de “Angles”, o guitarrista Nick Valensi afirmou que, a despeito de suas qualidades, o álbum não era capaz de corresponder às expectativas do público. Tão difícil concordar com ele quanto contradizê-lo – afinal, cinco anos não são fáceis de aguentar, e, depois de tantos atrasos e especulações, o que se quer é um trabalho, no mínimo, revolucionário. Certamente “Angles” não o é – mas chega perto, o que já é muito em tempos de poucas novidades e muitas auto-referências e jargões sonoros. Ouça sem medo de se decepcionar.
Nota: 9,5
Destaques: “Macchu Picchu”, “Taken for a Fool”, “Life is Simple in the Moonlight”
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